28/05/2026
Rodrigo Queirós Palavras-Chave: Espaço público, cidade, confluência, arte e arquitectura
A praça dos Poveiros, Porto, e a antiga Adega do Galo em 1930 e 2025
Dominguez Alvarez, Adega do galo, 1930, óleo sobre tela, 105 x 79 cm.
Rodrigo Queirós, fotografia digital, 2025

Sumário

Em 1956, Manoel de Oliveira retrata o Porto através do olhar e caminhar de um pintor imperturbável. Setenta anos depois, na mesma cidade, procuro retratar os mesmos locais, suas transformações e imutabilidades. Este projecto, ainda em curso, explora o tema da confluência do espaço urbano e da arquitectura com as artes visuais através do registo fotográfico e do vídeo documental.

“I have been around the world several times and now, only banality still interests me.”
Chris Marker in Sans Soleil, versão língua inglesa, 1983

“O subconsciente tem muita força em qualquer artista.(…) Há coisas que são plagiadas por falta de imaginação. Mas quando um artista vê uma coisa de que gosta, seja no cinema, na arquitectura ou em qualquer outra expressão artística, é como se fosse dele. E portanto vai fazer a mesma coisa, que não é exatamente igual, mas semelhante e não é um plágio. “
Manoel de Oliveira in, A Casa, p. 132

Há exatamente 70 anos atrás o realizador Português Manoel de Oliveira filmou a curta-metragem “O Pintor e a Cidade” (1956), seguindo um outro artista pelas ruas da mesma cidade. O primeiro filme português a cores é uma confluência artística entre dois grandes representantes das artes visuais portuguesas. Manoel de Oliveira apresenta a cidade do Porto contrapondo a sua visão cinematográfica à do pintor António Cruz (que nas palavras de Abel Salazar: “sem contestação possível o maior aguarelista português dos tempos modernos”). Manoel de Oliveira parte para outro filme depois de 14 anos de “Aniki-Bóbó” para “registar sem trair” a cidade onde nasceu.
António Cruz vagueia pela cidade do Porto, pintando o que vê: edifícios antigos e modernos, pessoas a chegar e a sair do trabalho nas fábricas, crianças a brincar. Maioritariamente filmado na baixa da cidade do Porto, conseguimos ver uma cidade ainda habitada, fabril e mercantil, em que só o corpo do artista parece andar livremente. Um cenário histórico/monumental épico para o trabalho e a vida de milhares de portuenses, mas também um lugar de pobreza e autoridade. Sobre a cidade paira uma atmosfera nostálgica acompanhada pela banda sonora e coros. Os planos alongados (como quadros) contrastam com os documentários anteriores de Oliveira e enunciam um novo olhar contemplativo que força o espectador a entrar num outro tempo não moderno mas talvez da memória e da poética.

“No sentido mais lato da palavra, os meus filmes são, sem dúvida, filmes políticos, na medida em que deles ressalta a verdade dos acontecimentos, a verdade das coisas.(…)Todos os meus filmes são filmes de resistência. Não são filmes de uma ideologia contrária, nem filmes de ataque, mas filmes de resistência.“
Manoel de Oliveira in, Os pobres no cinema de Manoel de Oliveira, p. 56

Outros artistas e realizadores também revisitaram o espaço representado por outras obras artísticas, apropriando-se ou recriando os mesmos. O filme de 2012 do realizador americano James Benning, Easy Rider, recria os planos nos mesmos locais e na mesma hora do dia, o filme de culto de 1969 com o mesmo nome de Dennis Hopper. Benning respeita o encadeamento da edição e a duração dos planos, mas sem personagens nem ação narrativa. Tanto peregrinação como profanação, este filme é uma viagem pelos locais da rodagem que questiona a mitologia da paisagem e o significado da contracultura.  Em cada local e no seu encadeamento há uma atenção espiritual e energética aos locais e às mesmas paisagens, quase como a transformação do filme num ritual.
O filme de João Rui Guerra da Mata e João Pedro Rodrigues Onde Fica Esta Rua? (2022), também procura os lugares originais do filme Os Verdes Anos (1963) pela conjugação do documental e da encenação fantástica.
Por sua vez Pierre Huyghe na sua série com painéis publicitários recria encenando o mesmo espaço público onde as fotografias são apresentadas em grande formato. Imediatamente o espaço banal é monumentalizado, e novas ficções baseadas no quotidiano dos seus habitantes começam a surgir.

É neste contexto que surge a ideia para este ensaio visual. A figura do pintor, imerso no caos da cidade mas distante dele pela sua prática contemplativa e silenciosa, representa uma resistência poética, um gesto anacrónico num mundo onde tudo é capturado, filtrado e consumido rapidamente. A sua persistência em pintar, em fixar a luz e a cor num “instante prolongado”, contrasta com a efemeridade das imagens digitais e com a narrativa turística que reduz o Porto a um cenário pitoresco.

“A student asked me what century I would choose to live in – as a painter. I replied today. It is the only answer possible. You soon give up wishing you had a different kind of mother when you have to keep her.”
John Berger, A Painter of Our Time, p. 18

A minha própria relação ambivalente com esta transformação faz-me questionar as narrativas que são impostas à cidade, normalmente romantizadas, fetichizadas ou simplificadas. As fotografias, portanto, não são apenas sobre o Porto, mas sobre a forma como olhamos a cidade e o espaço público como habitantes e como artistas.

Este projeto é uma forma de processar a própria nostalgia sem cair na idealização, de criticar sem desprezar o que a cidade se tornou. A cidade e a sua arquitectura como um organismo vivo, contraditório, de camadas confluentes de história e memória. É o pintor, com os seus óleos e pincéis. É a metáfora de Manoel de Oliveira e António Cruz para a necessidade de preservar um olhar próprio e íntimo.

Ensaio Visual: O pintor e a cidade

Bibliografia

Cruz, Antonio. (1999). O pintor e a cidade: cinquenta aguarelas sobre o Porto. Edições Asa.

Berger, John. (2010). A Painter of Our Time. Verso. (1958).

Dominguez, Alvarez. (2006). 770 Rua da Vigorosa, Porto. Exposição do Centenário do nascimento de José Cândido Dominguez Alvarez. Fundação Calouste Gulbenkian.

Erice, Victor. (2021). El Latido del Tiempo. www.victorerice.com. https://www.victorerice.com/2021/06/11/el-latido-del-tiempo/

Erice, Victor. (2022). Documental y Ficción: Un acercamiento a la doble naturaleza del cine. www.victorerice.com. https://www.victorerice.com/2022/03/03/3419/

Oliveira, Manoel de. (2019). A Casa. Fundação de Serralves.

Oliveira, Manoel de. (2022). Ditos e Escritos: O Documentário. Fundação de Serralves.

Parsi, Jacques. (1999). Os pobres no cinema de Manoel de Oliveira. In Antoine de Baecque & Jacques Parsi (Eds.), Manoel de Oliveira (pp. 87-95). Clube de Autores.

Filmografia:

Marker, Chris. (1983). Sans Soleil (Sunless), Versão língua inglesa.

Oliveira, Manoel de. (1956). O Pintor e a Cidade. https://www.youtube.com/watch?v=rmzl-rHfQTU

Benning, James. (2012). Easy Rider.

Guerra da Mata, João Rui e Rodrigues, João Pedro. (2022). Onde Fica Esta Rua?.

Huyghe, Pierre. (1994) Rue Longvic.


Rodrigo Carneiro Queirós (1994) é artista visual e fundador da Galeria/Atelier “Caldeiras”. O seu trabalho artístico existe na confluência de inúmeras influências e técnicas, rodando a reprodução, o ready-made, os temas clássicos adaptados à contemporaneidade, desdobrando-se em pintura, desenho, escultura, instalação, e cerâmica, e gravura. Trabalha  em cenografia e direção de arte para projetos de Teatro e Cinema de companhias como “Circolando”, “Devagar” e a produtora “Rua Escura”. Desenvolve investigação para o seu Doutoramento sobre a ideia do lugar nas artes visuais, tanto na sua representação como na sua criação. Desde 2025 que vive e trabalha em Zagreb.

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