
Resumo
O Arquivo Liminar* constitui um texto híbrido – entre ficção especulativa, ensaio e montagem intertextual – que problematiza a pulsão colecionista e o gesto arquivístico enquanto práticas simultaneamente reparadoras e violentas. A partir da figura de J., confrontado com a triagem urgente de um espólio familiar ameaçado pela destruição, o texto formula o conceito de arquivo liminar como dispositivo íntimo e transicional: um conjunto de objetos e documentos que funcionam como bilhetes de acesso a “intra-entre-lugares” mnésicos, onde o presente é assombrado por reentradas do passado. A emergência de Dr. Lib – arconte e instância hermenêutica – permite dramatizar, em chave alegórica, as aporias do arquivo: a sua dependência de poder, seleção, recalque e apagamento, bem como o retorno espectral do que se pretendeu soterrar. No horizonte, a hipótese do Das Allumfassende Archiv (o “Arquivo de Tudo”) opera como limite utópico e inquietante, expondo a tensão entre o desejo de totalidade e a impossibilidade foucaultiana de descrever exaustivamente o arquivo. Em paralelo, a noção de Ab-humanidade radicaliza a problemática ao imaginar uma extinção humana acompanhada do apagamento dos próprios resíduos arquivais. O texto propõe, assim, uma contribuição para a investigação artística sobre arquivo, memória e espectralidade, defendendo a ficção como método crítico capaz de tornar sensível a dimensão afetiva, política e anárquica do arquivar.
*Adaptado da seguinte tese de investigação em arte: Rocha, Jerónimo (2025), O Arquivo Liminar; ou O Espectro no (an)Arquivo do Colecionador, Tese de Doutoramento em Artes Plásticas, Porto, Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto.
Introdução. De Tempo Contado.
J. tinha o tempo contado. A um canto, um conjunto de embrulhos de papelão atados por cordéis devolviam-lhe a mirada. Na etiqueta que identificava um deles, estava escrito, numa impecável caligrafia: “Dº do govº – 1931 – 3º trim” (Diário do governo, 1931, terceiro trimestre). Às cinco da tarde chegava o táxi, o que lhe dava algumas horas para selecionar quais os livros que iam para as poucas caixas de cartão que caberiam no porta bagagens e quais as que acabariam numa fogueira, juntamente com os móveis apodrecidos pelo tempo. Enquanto a sua mãe e a Zélia se desfaziam ruidosamente do mobiliário, era a sua prerrogativa triar algumas dezenas de volumes, por entre uma parede que arquivava colunas de bíblias, romances, livros de propaganda política, revistas, diários ou notas, entre tantos outros códices que aí habitavam desde as primeiras décadas do século XX. Uma categorização feita ao longo de pelo menos três gerações iria encontrar um violento e abrupto fim dentro de algumas horas. Lembrou-se de William de Baskerville, o monge investigador à la Sherlock Holmes que chorando, tentava desesperadamente apagar o fogo que iria eventualmente consumir a biblioteca-dédalo da Abadia beneditina em O Nome da Rosa (1980). “– É impossível, jamais conseguiremos, nem sequer com todos os monges da abadia. A biblioteca está perdida.” (Eco, 1984, p. 355)
Não sabia se o que se lembrava daquela casa – perdida por Rebordelo, a quinze quilómetros de Amarante – era uma memória verdadeira, ou uma construção implantada por um punhado de fotografias da sua infância que já vira tantas vezes ao longo da sua vida. Sentia-se como Rachael, a replicant de Blade Runner (1982), quando descreve a Deckard as memórias implantadas da sobrinha de Tyrell como suas (Scott, 1982, 00:33:15). E quando Deckard observa uma das fotos da “infância” de Rachael – sentada num alpendre com a sua mãe – Ridley Scott filma-a de tal modo que por um momento, só por um momento, parece-nos ver mexerem-se ao ralenti as sombras das arvores na luz dourada de uma tarde do passado; sem que seja totalmente claro (sem um segundo visionamento frame a frame) se é a foto que se reproduz como se num tablet, ou se são só as sombras provocadas pela agitação da distópica retro futurista L. A. a pregar-nos uma partida à nossa perceção. Também assim percecionava J. as reproduções fotográficas. Numa delas está ao colo da sua avó, sentados num escano, junto de uma lareira de chão. À sua volta, meia dúzia de potes de ferro pretos. Noutra estão o seu pai e o avô materno junto a uma mesa, na mesma cozinha, mas noutro canto. Preparam-se para tomar café. Ou assim o imaginava, por causa da cafeteira pousada na velha mesa. Reconhecia que “um acontecimento vivido é finito, ou pelo menos encerrado na esfera do vivido, ao passo que o acontecimento lembrado é sem limites, porque é apenas uma chave para tudo que veio antes e depois.” (Benjamin, 1994, p. 15). A dissonância entre o reconhecimento destas pessoas e a estranheza inquietante de que estes acontecimentos não pareciam pertencer-lhe, faziam variar a sua asserção de que ele esteve lá, para uma perturbadora questão do foro da perceção (na esteira de Merleau-Ponty): estivera ele lá? (Umbelino, 2019, pp. 35-36) Numa prateleira, um conjunto de livros já sem capa tombavam uns sobre os outros. Via-lhes as costuras nuas, cobertas agora por uma camada de pó e por pequenos montes de caruncho que se acumulavam aleatoriamente, formando uma espécie de acne livresco. Numa lombada ainda preservada lia-se, numa irónica observação: “Reflexões Religiosas”. Era definitivo, era ele o arconte daquele arquivo. E sobre ele se abateu um súbito temor existencial, no ditar de uma decisão impraticável. Para o arquivo. Ou. Para o enterramento. Uma escolha impossível para um autoproclamado obsessivo “completista”. Walter Benjamin dissera que o colecionador é avaro, possessivo e atormentado por um senso de proximidade do fim (Benjamin, 2019, pp. 322), e agora J. compreendia as suas palavas nas notas d’As Passagens de Paris. Via, diante de si, um espólio que se desmembrava. E evocava, diante de si, um futuro no qual ele próprio já não existia, e sobre o qual a mesma escolha se abateria sobre outros, acerca da sua coleção, num tétrico mise en abyme. Tinha o tempo contado.
1. Coisas.
Eu confio nas coisas. As coisas foram feitas para durar. De lugar em lugar. De geração em geração. É por isso que eu tiro coisas para as guardar. (…) Porque quando as pessoas que amamos se vão e as memórias somem, o que mais as mantém vivas? (Philippe, Schnesel & Dabis, 2023, 00:01:54)
J. tinha prazer em coligir coisas. Tácteis, sólidas, patentes. Durante toda a sua infância fora incutido a guardar ora as caixas dos seus brinquedos, ora os folhetos de instruções para as montagens dos mesmos. Colecionava pequenos carros metálicos à escala 1/64 que pousava criteriosamente, recriando longas filas de trânsito que se desenhavam pelos arabescos das carpetes. No fim do dia colocava-os na vitrine do seu quarto, posicionando-os lado a lado, como que numa gigantesca exposição automóvel. J. acreditava que o verdadeiro colecionador devia sentir uma atração instintiva, delineada pelo prazer de adicionar e agrupar em taxonomias – reais ou inventadas (Benjamin, 2019, p. 326) – um sem fim de possíveis médiuns e temas; e que o “objeto [colecionado] seja libertado de todas as suas funções originais, para entrar numa relação o mais estreita possível com os que lhe são semelhantes” (Benjamin, 2019, p. 319).
À medida que crescia, as coleções de J. seguiam-se. Dos carrinhos às coletâneas de cromos autocolantes. Mas não eram só as cadernetas que se ajuntavam nas prateleiras, eram também as saquetas rasgadas dos cromos e, em alguns casos, os supérfluos versos dos mesmos. Depois somaram-se os canhotos de ingresso das sessões de cinema e outros eventos. J. não tardou a colecionar faturas e recibos das mais variadas compras – o arranjo de uma torneira, uma refeição, uma viagem de táxi – mistificado não só pelo aspeto gráfico do documento, que muitas vezes o fazia imaginar o adereço de um conto burocrático-labiríntico-infernal de Kafka; mas principalmente pelo significado do mesmo: uma prova que J. vivera aquele momento. Agrupava tudo aquilo como as Time Capsules (1974-1987) de Andy Warhol, empilhando-as sincronicamente pelas suas possíveis categorias dentro de caixas de papelão ou plástico, por sua vez empilhadas umas nas outras de forma cronológica. E quando o acumular desta papelada se tornava, a seu ver… acumulador e doentio, J. sofria horrores a determinar qual das provas salvaria. Partilhava a dor do tio Misha em O homem que não deitava nada fora (1977) de Ilya Kabakov:
Privarmo-nos de tudo isto significa largarmos aquilo que fomos no passado e, de certo modo, significa deixar de existir. (…) Porque é que o senso comum deve ser mais forte que as minhas memórias, mais forte que todos os momentos da minha vida que estão agarrados a estes pedaços de papel que agora parecem cómicos e inúteis? (Kabakov, 2006, p. 33)
Aqueles documentos, assim como todas as coisas que colecionava, eram como bilhetes peculiares que lhe permitiam o ingresso num espaço-tempo só seu, entre o aqui e agora, e a sua perceção do que fora. Traziam consigo as características da memória involuntária puxada pela potência da madalena embebida no chá de Proust1 (Proust, 2023, p.59). A viagem era tão avassaladora quanto insólita:
[…] como se o tempo presente do adulto que sei ser fosse colonizado inesperadamente pelo fantasma de mim próprio enquanto a criança que fui em determinados lugares; tudo se passa como se eu próprio fosse agora tomado pela presença atmosférica, no presente, de mim próprio no passado (…) é como se o corpo e os espaços “de hoje” fossem inundados pelo corpo e espaços “de ontem”, criando um híbrido de espaço-tempo pelo qual me torno, ao mesmo tempo, o adulto de hoje e a criança de ontem: “ao mesmo tempo” porque no mesmo espaço. (Umbelino, 2019, pp. 29-30)
Estes espaços mnésicos, transicionais, de aparência vagamente desconectada da realidade – mas tão ou mais crus que esta – fermentavam a sua coleção em constante expansão e pesavam sobre si, exercendo uma enorme carga existencial, como espectros que assombram o arquivo de um colecionador obsessivo, acumulador e atormentado pela eventual ou inevitável destruição do seu espólio. E, pela sua morte ou pela destruição do seu espólio, ele sabia que tudo o que colecionara até então – e a partir daí – seria, mais cedo ou mais tarde, transicional. J. refletia vezes sem conta sobre a potência desse acervo, que eventualmente designou como arquivo liminar, por sentir nela uma afinidade aos lugares homónimos – os espaços liminares – velados de uma atmosfera de abandono, de aparência negligenciada e também vagamente desconectada da realidade, como uma área de espera entre um aqui e agora e um porvir.
Se os não-lugares eram o que Marc Augé denominava no seu livro homónimo de 1995 como as “zonas genéricas de trânsito (retail parks, aeroportos) que hão de dominar cada vez mais os espaços do capitalismo tardio” (Fisher, 2020, p. 31); então este espaço, por oposição, espectral, do íntimo, poderia denominar-se intra-entre-lugar.
2. Dr. Lib.
Benjamin falava ainda, em termos implicitamente auráticos, da “língua incomparável da caveira” quando nos aparece, quando nos olha: “Ela une a ausência total de expressão (o negro das órbitas) à expressão mais selvagem (o esgar da dentadura)” (Didi-Huberman, 2014, p.157)
Voltando para casa do trabalho, como em qualquer outro dia, J. deparou-se com uma encomenda. Ou melhor… uma encomenda deparou-se com ele. Mesmo no topo das escadas, à porta de casa. Um embrulho de papelão, amarrado por um cordel. Desnovelou o cordel e puxou o papel, desvendando uma caixa de cartão que prontamente abriu.
No seu interior, uma campânula de vidro. Uma campânula como qualquer outra. Como tantas que tinha na sua sala. Mas esta era… diferente. Não muito pequena. Não muito grande. Mesmo à sua medida. O seu interior… mais… familiar… que a sua própria casa. Sentou-se e ficou a observá-la por muito tempo. E depois… e depois decidiu… e depois decidiu experimentá-la. Para ver se lhe servia. E foi então meteu a sua cabeça lá dentro.2
A princípio nada se passou… mas logo, de súbito, algo aconteceu. De dentro ecoou uma voz. Falava em alemão mas, por algum estranho motivo, J. conseguia compreendê-la. “Bem-vindo a casa, meu bom homem. Estivemos à sua espera.”, sussurrou-lhe.
J. não se lembra do tempo ter passado, mas em breve sentia que a campânula habitara a sua casa desde sempre. Até ao dia em que, ao entrar na sala pela manhã, viu que na base de madeira lacada da campânula conseguia ler-se uma etiqueta que dizia “ich bin genauso vi du”, “eu sou exactamente como tu”. Não se lembrava de a ver ou ler antes. Mas isso não era o mais estranho. A campânula estava agora habitada por um estranho totem.
O que era aquilo? O crânio de uma criatura, de uma espécie de pequeno símio, devolvia-lhe a mirada de dentro da campânula, embora não tivesse olhos, só o breu da concavidade das órbitas. Os seus dentes eram profundamente animalescos e ferozes, mas pareciam soltar um sorriso de concavidade a concavidade, num esgar enigmático, esfíngico. Tudo aquilo se envolvia de uma atmosfera proto museológica, de gabinete de curiosidades, de Wunderkammer, de sala das maravilhas; contendo tudo o que é profundamente, grotescamente traumático e que foi capturado no que está por detrás, escondido, à espera de voltar, e que voltou e agora se exibe. Uma cápsula das maravilhas horríveis, de sublime atração-repulsa. Uma campânula que encapsulava um monstro homérico, que escondia um princípio de passado, “puxando-o para o interior, isto é, para o secreto, para o Mistério (de onde tinha, apesar de tudo, originalmente emergido) (…) [onde] todas as coisas que são chamadas de estranho-familiar são aquelas que se deveriam ter mantido em segredo, escondidas, latentes, mas que vieram à luz” (Schelling cit. por Vidler, 1992, pp. 26-27).
Foi então que J. compreendeu a horrível sensação que sentia. Estava a ser lido. Estava a ser lido com um leitor estuda o texto e as figuras que descrevem o quotidiano das criaturas bidimensionais de Flatland (1884) de Edwin Abbott Abbott. Como um ser da enésima dimensão nos observaria a nós. Sentiu aquela mente alienígena, profana, a expandir-se e influir a sua rede sináptica. Cruzava as suas memórias interiores usando marcos históricos, exteriores a si, como os ponteiros de uma bússola. E então a voz interior projetou-se mais uma vez: “Mein Name ist Doktor Lib”, “O meu nome é Dr. Lib.”
– Devo estar a alucinar-vos, Doutor. – cortou J. Dr. Lib pausou por um momento, numa expressão que telegrafava algo como: “já o esperava”.
– Não podeis ser real. – continuou J., – Devo estar a imaginar-vos.
– “[É] privilégio dos romancistas criar personagens que matam as personagens dos historiadores. A razão é que os historiadores evocam meros fantasmas, ao passo que os romancistas criam gente de carne e osso.” (Dumas cit. por Eco, 2024, p. 63) Não pense nem por um segundo, mein leiber freund que, só por ser meramente ficcionado, sou de todo menos relevante. Estivemos à sua espera para que, no momento certo, pudéssemos intervir. Isto é, quando estivesse preparado para nos receber. Que é agora.
J. solta uma gargalhada nervosa, olhando à volta pela sala, enquanto abana a cabeça – Quem sois vós? Verdadeiramente.
– Sabeis o que é um arconte?
J. pensou por momentos e depois atirou, a medo – Um magistrado? Alguém que guarda documentos oficiais?
– Correto.
[Os arcontes] não eram responsáveis apenas pela segurança física do depósito e do suporte. Cabiam-lhes também o direito e a competência hermenêuticos. Tinham o poder de interpretar os arquivos. Depositados sob a guarda desses arcontes, estes documentos diziam, de fato, a lei: eles evocavam a lei e convocavam à lei. Para serem assim guardados, na jurisdição desse dizer a lei eram necessários ao mesmo tempo um guardião e uma localização. Mesmo em sua guarda ou em sua tradição hermenêutica, os arquivos não podiam prescindir de suporte nem de residência. (Derrida, 2001, pp. 12-13)
Somos guardiões da vossa história, arcontes do vosso depósito e suporte. Começamos na construção do vosso universo físico, assim como o conhecem. Agora, se é que esta palavra se pode aplicar neste vosso conceito de tempo, viajamos pela vossa história, mas estamos para além desta, mexendo-nos por entre as cicatrizes que a descosem, deslizando pelos seus traços de recalque e repressão, saltando pela vossa constante pulsão pela repetição. Isto para que possamos fazer a curadoria deste vosso arquivo que fostes vós, fazendo casa no… fazendo casa no Allum… enfim, uma coisa de cada vez.

3. Das Allumfassende Arquiv.
A Biblioteca existe ab aeterno. Dessa verdade cujo corolário imediato é a eternidade futura do mundo, nenhuma mente razoável pode duvidar. (Borges, 2020)
J. falou prolongadamente sobre a montagem do seu arquivo liminar, dos seus documentos que lhe permitiam o acesso íntimo aos seus intra-entre-lugares, além das suas ansiedades avaras de colecionador. J. tentou explicar de onde vinha aquela pulsão: “É como um…”, mas Dr. Lib completou a frase por ele, como se, de imediato, o conhecesse intimamente:
[É como um] arder de paixão. É não ter sossego, é incessante, interminavelmente procurar o arquivo onde ele se esconde. É correr atrás dele ali onde, mesmo se há bastante, alguma coisa nele se anarquiza. É dirigir-se a ele com um desejo compulsivo, repetitivo e nostálgico, um desejo irreprimível de retorno à origem, uma dor da pátria, uma saudade de casa, uma nostalgia do retorno ao lugar mais arcaico do começo absoluto. (Derrida, 2001, p. 118)
– É isso. É o que dá o sentido às coisas que colecto. É o que me dá sentido. – expirou J.
Dr. Lib acertara em cheio, mas tal não fazia J. sentir-se de todo melhor. Lib, percebendo a sua neura, continuou:
– Devo avisá-lo, no entanto, que “esta necessidade de impor ou descobrir sentido no mundo pode levar à obsessão, fazendo com que o obcecado acredite que a fixação no assunto revelará o sentido. [Assim], abandonar a obsessão é aceitar a presença da falta de sentido no mundo.” (Miley, 2010)
– E o que ganharia eu, Herr Doktor, aceitando que o mundo não tem sentido? E, se sim, não é preferível fazê-lo ter? Pela minha prática?
– Claro que sim! Apenas apelo que reconheça os riscos que incorre. Repare bem:
É por isso que a arte arquival pode parecer tendenciosa, ilógica até. Na realidade, a sua vontade de ligar pode denunciar um laivo de paranoia, pois o que é a paranoia senão um exercício de ligações forçadas, do [seu] próprio arquivo privado, dos [seus] próprios cadernos do subterrâneo, postas à mostra? (…) Para Freud, o paranoico projeta os seus significados no mundo justamente porque este parece sinistramente esvaziado de todo o sentido.
(Foster, 2021, p. 101)
A pequena caveira “olhou” J. nos olhos e, no seu perene esgar, atirou-lhe o seguinte:
– E se eu lhe dissesse, meu bom homem, que a humanidade já não existe. Aliás, que se extinguiu faz já muito, muito tempo. Seja porque o Sol engoliu o seu sistema planetário, ou até mesmo pois, na corrida desenfreada do progresso, a Humanidade foi naturalmente vítima do que tende a acontecer sempre que se sobe um degrau na escala de Kardashev3, validando assim o paradoxo de Fermi4. E que todos aqueles preciosos itens – os documentos, a parafernália, os artefactos, os diagramas, as exposições – que tanto lhe aprazem e apaziguam o seu vício avaro se perderam, se incineraram, se desintegraram, se dissolveram, se desfizeram, se eclipsaram. Enfim, acabaram. E que o cosmos fez questão de eliminar mesmo as sondas mais insistentes e aventureiras, ora com chuvas de meteoritos, ora com supernovas. Vocês falam de pós-humanidade5 quando deviam, de facto, falar de Ab-humanidade; a partir do prefixo latino ab-, de afastamento, ausência, provação. Um conceito bem mais radical, eu sei, pois implica uma Era ou condição na qual vós – humanos – não só já não existem, como todas as vossas secreções arquivais, resíduos civilizacionais ou culturais foram já eliminados da existência pelo acaso e caos cósmico. Uma condição que para vós, se poderá apresentar como profundamente aporética, como a morte, pois nela não estão implicados, e por conseguinte não é de todo observável (Han, 2021, pp. 12-13).
J. senta-se no sofá, expirando com desconsolo. “Que pensamento desolador.”
Mas o pequeno crânio continuou como se nada fosse: – Desolador sim, mas nada que já não lhe tivesse passado pela cabeça. Muitas vezes, aliás.
J. voltou-se para Dr. Lib, que continuou: – Não o negue, mein lieber freund, eu sei. Eu bem sei. Eu reconheceria essa ânsia do seu olhar em qualquer lado. Esse temor existencial. É justificado. Não há fuga possível. Nem há ferramentas nas vossas mentes de símio que o compreendam em absoluto: a inevitável e irrevogável não-existência.
– Mentes de símio? –, interrompeu J.
Dr. Lib pausa por momentos e logo regressa, em tom provocatório, – Não pense que escolh(i/eu) esta minha forma por acaso.
Gera-se um silêncio desconfortável na sala. Por fim, J. fita Lib, confrontando-o: – Diga-me, Herr Doktor, se tudo está perdido, se nada vale a pena, e se o sabe, como aparenta saber, então porque razão veio até mim? Para me humilhar?
O doutor responde de imediato: – Para lhe propor uma viagem.
J. ergue-se do sofá e aproxima-se novamente da campânula, repetindo lentamente as últimas palavras de Lib, agora em forma de pergunta, – Uma viagem?
– Sim, uma viagem. Uma viagem que só alguém como vós poderia empreender. Alguém com o vosso… ethos. Diga-me, meu bom homem, o que é que alguém como vós faria, se tivesse acesso privilegiado ao… Arquivo de Tudo.
– Ao arquivo de quê?
– De tudo, mein freund. Ao arquivo de tudo.
A última frase ressoou na cabeça de J. como um disparo de canhão. O arquivo de tudo. Era um conceito deveras apetecível, mas assombrosamente radical e logo se lembrou do que dissera Foucault acerca do assunto, na sua Arqueologia do Saber (1969).
É evidente que não se pode descrever exaustivamente o arquivo de uma sociedade, de uma cultura ou de uma civilização; nem mesmo, sem dúvida, o arquivo de toda uma época. Por outro lado, não nos é possível descrever nosso próprio arquivo, já que é no interior de suas regras que falamos, já que é ele que dá ao que podemos dizer – e a ele próprio, objeto de nosso discurso – seus modos de aparecimento, suas formas de existência e de coexistência, seu sistema de acúmulo, de historicidade e de desaparecimento. O arquivo não é descritível em sua totalidade; e é incontornável em sua atualidade. (Foucault, 2008, p. 148)
Teria de ser um sítio tão radical e tétrico quanto o seu radical e tétrico arauto, Dr. Lib, que prontamente continuou o seu discurso.
– O que lhe falo é de um espaço que encerra o acervo do que a humanidade fez, viveu, descobriu, sonhou. E fará, viverá, descobrirá e sonhará até se extinguir. Um topos hyperuranios, por assim dizer. Para os humanos, platónico, onde todas as ideias das coisas reais se encontram em permanente coleção; mas para nós, acessível na sua totalidade. (Platão, 2020, pp. 62-63) Uma totalidade onde poderá “transformar a extemporaneidade em justeza”, os “locais de escavação” em “locais de construção” (Foster, 2021, p. 102), pois não há porque penar para recolher os seus objetos, bilhetes de intra-entre-lugar ou momentos de kairós fílmico, quando tudo está lá para ser fruído à sua escolha. Fora dos constrangimentos do tempo. Com a coleção do mundo ao seu dispor. Não poderá ter uma melhor forma de colecionar, a mais eficaz entre todas as manifestações profanas de “proximidade”, melhor ainda que a recordação. (Benjamin, 2019, p. 319) Chamamos-lhe Das Allumfassende Archiv: O Arquivo de Tudo.
Após uma pausa dramática, deixando J. devoto aos seus pensamentos, Dr. Lib continuou: – Mas uma coisa é saber que um sítio existe e outra, completamente diferente, é saber…
– Como lá chegar. – arriscou completar J., voltando o olhar à caveira.
– Exatamente, meu bom homem. E acredite quando lhe digo que a cartografia deste topos é tão peculiar quanto a singularidade dele próprio. É, aliás, um utopos. Mas não, de todo, inacessível.
– Como? – preguntou J. com os olhos arregalados.
No seu esgar perene, a pequena caveira respondeu dentro da sua mente: – Este utopos é insular. Situa-se numa ilha para lá do oceano da tristeza. Uma viagem implica pagar o seu preço em sangue. Em dor.
A mente é dor. Só através da dor ela alcança novo conhecimento, uma forma mais elevada de saber e de consciência. (…) No seu processo de [trans]formação, a mente entra em contradição consigo mesma. Ela divide-se. Essa divisão, essa contradição, magoa-a. Mas a dor faz com que a mente se forme [para a viagem]. A formação pressupõe a negatividade da dor. Ao desenvolver-se para assumir uma forma mais elevada, a mente supera a contradição dolorosa. (Han, 2020, p. 51)
É, portanto, uma viagem dolorosa, da mente, demente. O vosso corpo irá transformar-se no processo. Assim como está agora, não está preparado para tal jornada. Terá de se preparar. Mas não se inquiete. Eu mesmo o ensinarei. Aos meus cuidados, conseguirá chegar lá. Mas lembrai-vos bem, eu apenas vos ofereço um caminho para que vejais o que vos atormenta. Não vos ofereço a salvação.
J. Pega na campânula com cuidado e leva-a gentilmente até à sua mesa de café. Depois senta-se novamente esfregando nervosamente as mãos nas calças e inspira fundo, olhos postos no doutor.
– Antes de mais, deve pensar o impossível como proposta de uma possibilidade. Veja, por exemplo, o livro infinito de Jorge Luís Borges, o Livro de Areia (1975) “– Não pode ser, mas é. O número de páginas deste livro é exatamente infinito. Nenhuma é a primeira; nenhuma, a última. Não sei por que são numeradas desse modo arbitrário. Talvez para dar a entender que os termos de uma série infinita admitem qualquer número. Depois, como se pensasse em voz alta: – Se o espaço for infinito, estamos em qualquer ponto do espaço. Se o tempo for infinito, estamos em qualquer ponto do tempo.” (Borges, 2012, p. 124) Ou o seu Aleph, o artefacto que lhe permite acesso a todos os pontos no espaço. “O diâmetro do Aleph seria de dois ou três centímetros, mas estava ali o espaço cósmico, sem diminuição de tamanho. Cada coisa (a lua do espelho, digamos) era infinitas coisas, porque eu a via claramente de todos os pontos do universo.” (Borges, 2013, p. 169) Veja, por fim a sua Biblioteca de Babel (1944). “Do ponto de vista tectónico a biblioteca é um edifício ‘infinito’, (…) [que] conteria todos os livros escritos e os inumeráveis outros que ainda não foram escritos, mas já estão realizados virtualmente. Seriam pensáveis milhões de versões da Divina Comédia, com diferenças mínimas, constituindo cada uma delas um novo livro.” (Miranda, 2017, p. 50)
– Como é sequer possível compreender tal espaço? Como é que as nossas… “ferramentas de símio”, tal como pôs há pouco, são capazes de processar tal informação ou guiar-se por ela? – retorquiu J.
– No final, quando estiver bem treinado, verá o espaço como me vê a mim, meu caro, neste preciso momento. Como espreitando por uma campânula. Como se vós fosseis um deus, ou o universo em si, ou aquilo além da realidade que é capaz de compreender, que o observasse a si mesmo, J., neste momento, pequenino, como um dos seus carrinhos à escala 1/64, dentro de uma campânula.
J. recostou-se no seu sofá, massajando as têmporas. Pensou “como o olhar impossível, desde o alto, para o qual os [Nazca] desenharam no solo figuras gigantescas de pássaros e animais, ou o olhar impossível para o qual foram moldados os pormenores das esculturas do velho aqueduto de Roma, embora não pudessem ser observadas do solo. Em suma, (…) a ideia de que ‘alguém está olhando para nós’; não é um sonho, mas a noção de que ‘somos os objetos do sonho de outro’” (Žižek, 2013, p. 88). Um verdadeiro olhar6.
4. De Monstros e Ruínas.
Isso leva à última pergunta: existe uma possibilidade de conduzir o desenvolvimento psíquico dos seres humanos de modo que se tornem capazes de resistir às psicoses de ódio e à aniquilação?
Carta de Albert Einstein a Sigmund Freud,
30 de julho de 1932
– Muito podemos fazer por si, meu caro. – trauteou Dr. Lib no seu perene esgar. – Vejo que possui as ferramentas básicas para que possamos passar ao nível seguinte, mas para tal, teremos de dar à sola. É de extrema importância que, para alcançar o seu destino último no utopos Das Allumfassende Archiv, ademais de se poder passear por este, aprenda a dobrar a sua mente pelo tempo e pelo espaço. Dada a vossa limitação fisiológica, deveremos primeiro retroceder, numa espécie de entropia invertida7, feita memória, até achar o seu estado orgânico mais primário, mais próximo da vossa origem inorgânica; para depois a podermos ultrapassar, saltando para além de si e indiscriminadamente, para a frente e para trás, na história.
– Desculpe, mas fala em viajar no tempo?
– Sim e não. O nosso assunto aqui não é o de mudar o que passou, mas sim o de viajar pelo pulsar repetitivo da vossa história que, tal como vós, meu bom homem, também se comporta como uma colecionadora obsessiva: acumuladora, (an)arquivista8 e atormentada pela inevitável destruição do seu Arché. Sim, “ela trabalha para destruir o arquivo: com a condição de apagar mas também com vistas a apagar seus ‘próprios’ traços – que já não podem desde então serem chamados ‘próprios’. (…) a pulsão de morte é acima de tudo, anarquívica.” (Derrida, 2001, p. 21) E é através desses traços, de recalque e repressão, que atravessam o arquivo do discurso da história enquanto véus de espectralidade (Derrida, 2001, p. 23-29) que se aprenderá a deslocar.
– De que traços fala?
D. Lib responde com gosto de orador:
Nada seria mais enganoso, até mesmo ilusório e ingénuo, do que acreditar que o arquivo seria constituído por uma massa documental fixa e congelada, tendo no registro do passado a sua única referência temporal, sem que os registros do presente e do futuro estejam efetivamente operantes no processo de arquivamento. Esse engano e essa ilusão querem fazer crer que o arquivo seja constituído por documentos patentes, isto é, tudo aquilo que de fato ocorreu de importante no passado estaria efetivamente arquivado sem rasuras e sem lacunas, ou seja, sem que estivesse em pauta qualquer esquecimento. (Birman, 2008)
Esta é a conjugação de história, verdade e poder que Derrida fez casar, a propósito dos arquivos sobre o mal: “dissimulados ou destruídos, interditados, desviados, ‘recalcados’. [O] seu tratamento é ao mesmo tempo massivo e refinado ao longo de guerras civis ou internacionais, de manipulações privadas ou secretas.” (Derrida, 2001, p. 7) Nomeie uma qualquer cultura e eu dir-lhe-ei o quanto foi apagado. Indique-me uma qualquer pessoa e eu contar-lhe-ei o quão foi suprimido. Tomemos o vosso exemplo. Quantas coisas não terá visto e experienciado, para depois ler ou ouvir distorcida ou velada, numa outra circunstância, por uma outra entidade cuja relação de poder o suprime a si e à sua verdade. E muito pouca ou nenhuma razão de queixa terá, meu caro: por vossa tez, género, localização geográfica, condição social e época em que o caos entropicamente o lançou até aqui, desde o seu estado inorgânico. E, convenhamos, se você o faz metodologicamente na vossa obra, com a vossa manipulação de montagem, com a vossa construção diegética, com a vossa ficção, o que impede a história, ou melhor, os seus vencedores, de fazer o mesmo?
– O que me diz faz-me lembrar o Anjo da História, de Walter Benjamin. “Voltou o rosto para o passado. A cadeia de factos que aparece diante dos nossos olhos é para ele uma catástrofe sem fim, que incessantemente acumula ruínas sobre ruínas e lhas lança aos pés. Ele gostaria de parar para acordar os mortos e reconstruir, a partir dos fragmentos, aquilo que foi destruído.” (Benjamin, 2017, p. 14) Mas… não lhe parece perversa tal comparação à minha prática?
– Eu apenas observo, meu caro.
J. reagiu de imediato e, como que aferroando, atirou-lhe: – Se assim o diz. Mas eu prefiro reservar esse posicionamento radical da infâmia para o território da arte.9
A bestialidade daquela caveira proto-humana tornava-se cada vez mais monstruosa aos olhos de J. Agora percebia ou, pelo menos, começava a entender porque o sondou daquela forma tão abjeta quando se conheceram; porque cruzou as suas memórias de infância no Portugal dos Pequenitos, conspurcando-a com outros traumas históricos de colonização, sem aparente relação. Era, provavelmente, a única forma que Dr. Lib tinha de o conhecer, navegando-o. “Foi uma horrível violação da minha intimidade” pensou. “Esta é uma oportunidade incrível, mas a que preço? Quanta hediondez ficará tingida em mim com este conhecimento?” Lib enquadrava-se na descrição que Ash – o androide corporativo de Alien (Scott, 1979) – faz da horrorosa besta espacial, num elogio à sua “pureza”: “um sobrevivente, despoluído de consciência, remorso ou ilusões de moralidade”. Desumano, portanto. Havia, no entanto, uma outra possibilidade – de carga psicanalítica – que J. não havia ainda considerado e que agora se semeava dentro de si. A de Lib ser literalmente um monstro da sua Id. Dos seus inatos impulsos: feios, lamacentos, reptilianos, proto-humanos. Como o antagonista fantástico de Forbidden Planet (1956), criatura feita de energia psíquica materializada, vinda do subconsciente do proverbial Próspero shakespeariano – o Dr. Edward Moebius – a partir de uma avançada tecnologia alienígena. E alienígena era Dr. Lib, mais não o podia ser. No entanto, a maldade, a indiferença, a cobiça, o impulso de morte que este referia, não o eram. Eram humanos. Por fim, e até porque não sabia se Lib perscrutava esses seus pensamentos interiores, J. disfarçou, voltando à carga: – Então o que me diz é que viajaremos orientados pela repetição do trauma das catástrofes da humanidade?
– Vejo que não lhe escapa nada. Quantas nações, credos ou indivíduos são suprimidos numa primeira instância para, mais tarde, se tornarem o opressor e assim renovarem o ciclo traumático. Nem só de Napoleões se repete a história da tragédia à farsa. E não só por duas vezes15. São como o reviver da mesma pulsão, com diferentes velos, enquanto vós, símios, perdurarem. – respondeu Dr. Lib, com uma certa condescendência. – Está correto, viajaremos através das repetições registadas à superfície histórica, mas usando a energia traumática, espectral, subcutânea que resulta desse enterramento. Como se a primeira fosse a tona da água e a segunda, a força oceânica que impulsiona as ondas.
– A segunda, subaquática, onde vivem os monstros homéricos. – retorquiu J. observando, em tom acusatório, a reação de Dr. Lib.
– Sehr gut, muito bem! Dos mistérios schellingianos soterrados (Schelling, 1966, vol.2, p. 649) que a história decidiu destruir, oprimir, apagar ou esquecer compulsivamente.
– Cicatrizes.
– Isso, mein lieber freund! Aprender a cruzar tais cicatrizes é aprender a navegar pelo Allumfassende Archiv.
5. Uma Herança.
O aludido passo final – de sangue – era mais metafórico que melodramático. Era um legado de família. Uma das suas tias-avós, da parte da sua mãe, falecera e deixara-lhe uma moradia em Rebordelo. Na verdade, quem verdadeiramente lhe deixara a casa fora a irmã mais velha desta, que falecera uns anos antes, mas cujo testamento estava enlaçado com a primeira.
Como era apanágio do seu carácter, J. levou a mal a herança: “Que tenho eu a ver com estas pessoas, que pouco ou nada conheci em vida e que agora me põem numa situação em que devo tomar ações legais, de uma forma ou de outra”; ou “estava eu a levar pacificamente a minha vida e logo me vejo com obrigações que, se ignorar, me podem prejudicar violentamente e sem que nada tenha feito para as potenciar.” Uma herança, longe da ideia romântica que motiva os assassinos nos thrillers noir, pode consumir mais riqueza daquele que a herda que, na verdade, conferi-la. O Estado, essa entidade acéfala, fica sempre com o seu quinhão à cabeça, que deve ser pago pelo beneficiário antes deste sequer ver seja o que for. Os bancos, preservando os direitos do falecido, impõem entraves legalíssimos ao acesso às suas contas, que os fazem enriquecer paulatinamente através de gastos de manutenção que se arrastam por meses, anos ou indefinidamente. Havendo terrenos ou imóveis envolvidos na herança, há que atualizar o proprietário nas finanças através das devidas cadernetas prediais que, na maioria dos imóveis ou terrenos antigos, não coincidem com os registos prediais municipais; implicando ajustes que mais anos podem tardar. E havia também as habituais mensalidades de luz, água e gás a ter de resolver. Para colmatar o intrincado esquema kafkiano, o imposto de selo – o dito pagamento ao estado – não só era cobrado a J., como também à sua falecida tia-avó Maria Antónia que, por não ter terminado o pagamento do mesmo imposto a quando o falecimento de sua irmã Maria José, em vida, cabia agora a J. essa mesma contribuição, sobre o mesmo imposto, a dobrar. Pensou para consigo: “Se algo me acontecesse agora, quem herdasse o meu legado teria de pagar o mesmo imposto três vezes sobre a mesma casa, uma por si mesmo, e duas por dois fantasmas. E assim sucessivamente.” J. sentia como se lhe fora entregue uma encomenda que ele não sabia que lhe era destinada, a troco de um recibo que nunca tivera.
Lembrou-se, num golpe, aos 14 anos, quando a criatura acéfala das finanças decretou que a sua mãe deveria pagar uma multa sobre ajudas de custo que o seu pai, já falecido, não havia declarado numa das empresas em que trabalhara. Ajudas de custo de viagens que fazia em serviço à filial da empresa em Lisboa (cidade onde J. agora habitava). Bilhetes comprados diretamente a uma agência de viagens por uma empresa que nunca os declarara e que, após um jogo de cadeiras político, sobrara para os que já lá não estavam. E, embora ninguém duvidasse da dignidade de seu falecido pai, faziam à sua mãe (e a si) pagar. “Se não o fizer, algo lhe será feito”.
Lembrou-se também, poucos anos depois desse processo começar (mas não terminar), quando um homem lhe aparecera lá em casa – um fiscal da segurança social – perguntando porque é que o seu pai ainda estava de baixa. A sua mãe ouviu-o pacientemente e no fim indicou ao fiscal o Cemitério de Paranhos para que este pudesse proceder com a sua linha de inquérito.
Desde então, crescera pensando nessa criatura acéfala como um mafioso de baixa estatura scorcesiano que entra no estabelecimento do comerciante local prometendo que, se este lhe entregar um valor a cada mês, não verá a sua loja propensa a acidentes. “Pague-nos e tudo correrá bem.” Criatura essa que, agora, voltava os seus globos oculares para J. uma vez mais.
Poderiam ser estas coisas do seu passado, além genética, que fizeram de si… que fizeram de si alguém com o gosto pelo que é rebuscado e torcido sobre si mesmo? Com o gosto pelos processos enigmáticos encadeados em jogos de mais enigmas, de enigmas em mise en abyme. Quereria ele reviver esse trauma, esse processo kafkiano vezes sem conta até poder, por fim, encontrar uma solução pelos seus próprios termos? Ou, pior, estaria ele bem unicamente e apenas enquanto preso a estes processos, não querendo verdadeiramente libertar-se deles? Estando verdadeiramente em casa, quando com eles? Aninhado num deleite de trauma. Como Nathanael para com os seus olhos.
No entanto, mesmo no fundo da sua nuca, a voz de Dr. Lib ainda reverberava e, ao contrário da sua espectativa, levantava-o da sua autocomiseração. “O que ficara dela agora é seu. Tenha-a conhecido bem ou não, mereça-o ou não, herdou-o. Será proprietário em vida dos seus arquivos. Aqueles que não se apagaram com ela. Bem… proprietário não será bem a palavra correta. Locatário. Sim. Locatário. Hermenêuticamente falando, a palavra serve um propósito mais fidedigno. Habitará os seus arquivos em vida, pagando um preço ajustado por isso. O Estado assim o irá garantir. Morte e finanças, mein freund. Morte e finanças.”
“Uma herança”, pensou. “Quem diria. O mundo tem um estranho sentido de humor. Ou melhor, de ironia.”
6. De Tempo Contado (Regresso).
Se na versão radical o anarquivar se apresenta como destruição do arquivo, em todas as imagens que dele se faça está em acto já uma certa anarquivação, sustentando estratégias várias em torno dos limites da Arché. (Miranda, 2017, p. 49)
J. não tinha condições nem o perfil para salvar esta distante moradia, pelo que a sua segunda visita à casa era mais radical. Agora que o mobiliário mais eminente estava salvaguardado no Porto, os móveis que ficavam seriam vendidos ao desbarato para esvaziar a casa, que seria igualmente posta à venda, estripada. Assim, o plano era triar o que restava. Triar era a palavra certa. Assim como Dominique Jean Larrey, o cirurgião chefe do exército de Napoleão, priorizara a assistência médica de acordo com a gravidade dos soldados feridos e não pela sua patente; também o fazia J. aos documentos que restavam, numa interpretação talvez menos dramática da analogia; não pela razão ou conhecimento de causa, já que não era especialista em nada do que ali estava, mas pelo instinto da sua experiência, do ótico, do táctil ou do sexto sentido e do que descobrira dos seus antepassados. E também da praticabilidade do arquivamento que se seguiria: onde guardar nas condições certas, protegido de humidade ou mau uso; a quem dar ou doar; como transportar; entre muitos outros fatores logísticos. Tinha umas horas para o fazer e sabia que o foco era aquela parede do escritório revestida de possibilidades. Às cinco da tarde chegaria o táxi monovolume que os levaria de volta ao Porto com o que decidisse levar dali. Quanto ao resto… pedira a Zélia para destruir. Mas J. não imaginava a intensidade da angústia que se avizinhava.
Usou a pesada chave para abrir a porta da cozinha que dava ao interior da casa e logo percorreu os corredores que levavam ao atafulhado escritório; isto é, até um pé em falso o enfiar chão adentro. Os restos de madeira podre estatelam-se lá em baixo, numa das lojas, a cerca de três metros de onde J. estava. Com o joelho e o orgulho feridos, J. puxa-se para cima, sacudindo o caruncho das calças. “Isto é uma armadilha”, pensa, enquanto espreita pelo buraco, tentando equilibrar o peso do seu corpo pelas tábuas. Lá em baixo, iluminados por uma porta semiaberta, viam-se barris de madeira podre, cobertos por espessos lençóis de teias.
A imaginação de J. hiperbolizou de imediato as memórias feitas documentos de Louise Bourgeois, nas suas formas de aranha, mas com um twist: ao invés da tecelã materna da artista6, o espectro da sua tia-avó, tecelã de linho, encasulava-se numa figurativa teia que envolvia a casa e à qual dava, apenas, um acesso condicionado à sua presença fantasmática. Até mesmo a J., seu legatário. “O que entra não sai”, ouvia-se, abafado pelas teias das paredes. Em vez de um saco de ovos de mármore no ventre de uma das Maman (1999)10 de Louise, o interior da casa de Rebordelo acumulava ou, gestava, todo o tipo de coisas e tralhas. J. e Tona partilhavam o impulso de Bourgeois. Jerry Gorovoy, que assistiu a artista durante os 30 últimos anos da sua vida comentara que esta “nunca deitava nada fora” (Lubow, 2006) e que, na altura da sua morte em 2010, ainda guardava os recibos do gás do seu primeiro apartamento em Paris. Tudo era material para ser processado e alimentar a sua prática artística. Eram os objetos intra-entre-lugar que J. bem conhecia. Todos eles eram avatares do tio Misha de Ilya Kabakov.
J. balanceou-se lentamente até ao escritório. Tinha o tempo contado. Forçou a porta, meia empenada, até a abrir. A um canto, o conjunto de embrulhos de papelão datados de 1926 a 1937, atados por cordéis, devolviam-lhe a mirada. Ao longe reverberava o estrépito dos restos de mobiliário que Zélia e sua mãe atiravam pela janela de um dos quartos, até à entrada da casa. J. imaginou a pilha de escombros em fim de vida, depois focou-se uma vez mais na parede que arquivava colunas de bíblias, romances, livros de propaganda política, revistas, diários e notas, entre tantos outros códices que aí habitavam desde as primeiras décadas do século XX. Uma categorização feita ao longo de pelo menos três gerações encontraria o violento e abrupto fim dentro de momentos. Era definitivo, ele era o arconte daquele arquivo e o seu juízo ia ser proferido. Foi então que sobre ele se abateu esse temor existencial do ditar de uma decisão impraticável. Para o arquivo. Ou. Para o enterramento.
A ação que se seguiu foi rápida e febril. Para cada revista Maria, saltava um livro de preces encadernado a cabedal que parecia inestimável. A escolha parecia fácil. No entanto, havia sempre aquele eco, lá atrás, que soprava: “Quem sabe, talvez daqui por uns séculos, até a revista Maria fornecerá pistas inestimáveis para o que fomos.” J. lembrou-se do Motel dos Mistérios (Macaulay, 1979), um livro ilustrado que lia em criança. Neste, a humanidade de um longínquo futuro, tecnologicamente avançada, mas ignorante do seu passado enterrado pelo tempo, escava os restos arqueológicos de um motel dos anos 80. As conjeturas e interpretações dos achados, extraordinárias na imaginação destes pós humanos, eram tão hilariantes quanto banais, particularmente quando vistas pelo nosso ponto de vista, de humanos do seu passado longínquo. Uma casa de banho é interpretada como uma câmara de oração, um tampo de sanita e escovas de dentes são ornamentos da vestimenta sacerdotal e uma sanita, um altar. A páginas tantas, um dos pós-arqueólogos recria o que pensa ter sido a cerimónia que ocorria no templo, debruçando-se sobre a sanita e cantando para esta. Todas as suas conjeturas estão factualmente erradas, mas nós, desde o nosso tempo, nada podemos fazer. Não podemos berrar ao Anjo da História para que nos salve, para que mude e reponha o que se apagou. Estamos impotentes. Os pós-arqueólogos não nos ouvirão. “Estarão também assim os nossos antepassados para connosco?”, perguntou-se J. A angústia tornava-se agitação e a agitação, cólera.
“Para o fogo!” A quem interessa o arquivo dos que morrem, o que fazer com a tralha que resta quando não se faz chegar a um seu novo útil colecionador? Quantos objetos – que a tantos interessariam – vão parar ao fogo? Muitos daqueles arquivos da história preservados por cerca de um século, deslocar-se-iam do escritório da moradia da Portelinha para a sua pira mortuária, para o seu esquecimento, para o não mais; apenas com J. como testemunha. Testemunha que se apagaria, também num futuro. Se arché é princípio, a morte também o é, no regresso ao inorgânico. Se calhar sempre foi suposto ser assim. Para quem ficará este arquivo, se não há realmente a quem ficar no fim de contas. Mais não vale enterrá-lo? Votá-lo a um esquecimento? A um passível futuro reconhecimento de estranheza familiar? A um passível retorno do recalcado? Não voltará mais forte? Mais espectralmente reforçado? No poder aurático que a proximidade do fim ou mesmo o próprio fim lhe atribui? Ao esquecimento! “À oubliette!”
Foi então que J. se deparou com uma arca. Ou melhor… uma arca se deparou com ele. Esboçou um sorriso insano. Pensou no jogo de palavras que aquele objeto lhe desenhava na mente. Arca, do latim, Arché do grego. Do salvamento do dilúvio do Deus abraâmico aos cofres que carregavam riquezas e sofrimento humano entre continentes, aos locais onde os registos do estado eram preservados.
[Da] ordem do conhecimento na era clássica da Europa dos séculos XVII e XVIII, à confessadamente “etimologia lúdica” de Michel Foucault, com o archē que motivou a sua arqueologia do arquivo. O arquivo deveria ser visto como um conjunto de relações de transformação e deslocamento, não tanto vestígios de alguma forma salvos da inundação, mas sim princípios que governam a sua retenção e destruição. A proposta era considerar os fatos do discurso passado não como documentos, mas como o que deveria ser entendido como “monumentos” a serem escavados no dilúvio. (Schaffer, 2019, p.152)
J. abre-a, sôfrego. Lá dentro, carregada até cima, mais cadernos se somavam. “O pensamento de Salazar: votar é um grande dever”, lê J. na capa de um deles, escrito a letras garrafais vermelhas. O mundo respondia-lhe, soltando os elementos aprisionados de uma outra oubliette8. Havia muitos mais daqueles documentos, escondidos em malas e arcas que a periferia da sua visão nem sequer tinha considerado. Mas o interior daquela particular arca parecia chamar por ele. No seu interior, a promessa da possibilidade de… da possibilidade do todo. Dentro de uma arca como qualquer outra. Mas esta era… diferente. Não muito pequena. Não muito grande. Mesmo à sua medida. O seu interior… mais… familiar… que a sua própria casa. Começou a esvaziá-la de todo o seu conteúdo. E depois… e depois decidiu… e depois decidiu experimentá-la. Para ver se lá cabia. E foi então que se meteu lá dentro.
A princípio nada se passou… mas logo, de súbito, algo aconteceu. De dentro ecoou uma voz. Falava em alemão mas, por algum estranho motivo, J. conseguia compreendê-la. “Bem-vindo a casa, meu bom homem; estivemos à sua espera”, sussurrou-lhe.

Posfácio.
Viena, 14 de novembro de 1919.
Quando pus os olhos neste particular paciente que, de resto, ficará anónimo, senti nele um oceano de angústia existencial, um temor espectral que parecia compeli-lo a buscar coisas que assegurassem ou confirmassem a sua existência no mundo ou, pelo menos, na sua realidade. Objetos, parafernália, faturas que, ao invés de se provarem como uma nota fiscal, provavam a sua passagem pela vida, tranquilizando-o. Era, comprovadamente, uma pulsão pelo colecionismo. Em particular de objetos minúsculos… que gostava de colocar em pequenas redomas de vidro que espalhava pela sua casa. Um apego por certos grupos de coisas cuja taxonomia era por ele decidida. O que, pensando melhor, me faz agora compreender que este fascínio pela coleção e o seu apagamento (da coleção e se si próprio, como que fossem uma e a mesma coisa) estariam de mão dadas – como anotaria Walter Benjamin n’As Passagens de Paris sobre o tema do colecionador – enquanto um sinal da aproximação da morte. Um tudo-nada tétrico.
Após várias sessões com o Colecionador – como decidi apelidar-lhe –, percebi que o seu pai falecera aquando a sua puberdade e que, um assumir de súbitas responsabilidades, acrescidas de diversos episódios traumáticos com os organismos de Estado – que chamava de criatura acéfala11 – haviam-no enchido de uma tremenda ansiedade. E, obviamente, dor. Segundo o meu colega Sigmund Freud, a dor é um sintoma que indica um bloqueio na história de uma pessoa. Devido ao bloqueio, o paciente não é capaz de continuar a sua história. As dores psicogénicas são uma expressão de palavras abafadas e reprimidas. A palavra tornou-se coisal. Por isso, a minha terapia consistiu em libertar a pessoa desse bloqueio da linguagem para fazer fluir de novo a história. Não posso dizer que tal tenha corrido pelo melhor.
De súbito os seus apetites de completista compulsivo viraram-se para horizontes mais… borgianos, de um realismo mágico que, na sua perspetiva, banalizava as mais extraordinárias fantasias12. Falava de um espaço singular – um depósito – para onde julgava estar a encaminhar-se, recebendo instruções aqui e ali a partir de uma estranha criatura que mais parecia vir do campo da metafísica ou, melhor ainda, do seu próprio Id. Este espaço parecia adquirir progressivamente o seu fascínio, principalmente após descobrir que se tratava de um lugar onde, segundo a sua própria descrição, “reunia o arquivo de tudo”, preservando o sedimento “de uma humanidade cujo cosmos já há muito decidira extinguir” e cujos resíduos seriam de outra forma apagados pela natural digestão do universo, condição que nomeou de Ab-humanidade. E, quanto ao espaço, chamava-o de topos hyperoranios, claramente retirado do lugar platónico das ideias que Benjamin comentara – mais uma vez n’As Passagens – ser a forma mais próxima à aproximação dos objetos colecionados, melhor ainda que a nossa pouco confiável memória. Esta era uma ilha utópica rodeada de, lá está, dor. A estranheza de tudo aquilo era unicamente suplantada pelo fascínio da ideia de mistério e o que esse conceito detém em si mesmo. Mistério pelo mistério. Insondável. E que só leva a nada mais que questionamentos.
Posso ter cometido um erro quando, talvez por mórbida curiosidade, instiguei a sua imaginação, questionando-o pelos detalhes de tal espaço. Relatou-me que desde lá se conseguia acessar ao produto de toda a história da humanidade. De como desde aí se possibilitava um ponto de vista impossível, uma espécie de olhar lacaniano, como que de um deus ou da própria realidade, observando a humanidade desde uma mais lata dimensão; e a partir daí compreendendo que o seu início e fim cósmico se repetia em eternos retornos nietzschianos (que constantemente recusavam a aceitar o seu destino, em negação ao amor fati13), e de como, por sua vez, esses eram perpetrados pelo constante enterramento e desenterramento de indivíduos, coisas e acontecimentos – tanto pessoais quanto históricos – em movimentos cíclicos de repressão e repetição, num perpétuo impulso de morte (Freud, 1920); como um Ouroboros que eternamente consome a sua própria cauda. Desde a noção de corso e ricorso14 que Giambattista Vico inaugura n’A Ciência Nova (1744) (e que terá influenciado Marx), onde a idade dos Deuses, dos Heróis e dos Homens, seguida de colapso, se faz retornar em ciclos civilizacionais; passando pelo o retorno das criaturas mitológicas homéricas que F. W. Schelling apontava na Filosofia da Mitologia (1857) – inaugurando a expressão de unheimliche15 – trazendo de volta algo que foi escondido antes, aos semelhantes enterramentos observados pelo discurso da História e referidos nos Arquivos do Mal (1995) de Jacques Derrida16; a humanidade mantém uma imutável compulsão autodestrutiva do regresso ao seu estado inorgânico. O Colecionador atinha-se “portanto ao ponto de vista de que a inclinação à agressão é uma predisposição pulsional originária e [retornava sempre] à ideia de que a cultura encontra nela o seu obstáculo mais poderoso.” (Freud, 2020, p. 375) É caso para dizer, em boa verdade: “Homo homini lupus [o homem é o lobo do homem]; quem é que tem coragem, depois de todas as experiências da vida e da história, de contestar esta frase?” (Freud, 2020, p. 363).
Esta relação cíclica era-me, de certo, profundamente análoga ao processo de trauma, repressão e subsequente retorno do recalcado, engatilhado pelo encontro com a estranheza do unheimliche. Mas o que tinha isto a ver com a sua compulsão pelos objetos, pelas coleções? Só fiz a ligação algumas sessões mais tarde e se calhar tarde demais, quando o Colecionador me atirou, em pleno discurso: “Ficam as coisas.” Claro! Era tão óbvio. As coisas reverberavam as passagens dos que as tocavam, dos que as fizeram, dos que as herdaram. Eram, para todos os efeitos, a plena definição das ruínas benjaminianas que o seu Anjo da História (Benjamin, 1940) tentava salvar, mas que não conseguia, impulsionado pelos vendavais do progresso, progresso esse que o paciente tentava suplantar, levando-o à sua destruição cíclica. Essas coisas potenciavam-se desses espectros; fantasmas que Derrida, em seu Espectros de Marx (1993) nomeara capazes de, desde o além, fazer agir fisicamente algo no nosso presente, assombrando-o com as suas ideias. Em resposta a uma carta de Albert Einstein dirigida a si sobre o porquê da guerra, o meu caro Sigmund escrevera (em setembro de 1932) que “a pulsão de amor dirigida aos objetos requer um complemento da pulsão de apoderamento, se alguma vez ela quiser se apropriar de seu objeto.” (Freud, 2020, p. 435) Poderia afirmar, com alguma segurança, que este binómio de amor e apoderamento ditava em absoluto subjugo o ethos do nosso Colecionador.
Foi então, quando parecia estar a chegar a algum lado, que o tapete me foi puxado por debaixo dos pés. Acontece que, certo dia, o Colecionador deixou de aparecer. Algumas semanas após o facto, decidi procurá-lo. Foi então que, para meu espanto, compreendi que ninguém sabia dele nem tão pouco que este parecia sequer existir. Seguindo a morada da sua correspondência, assinalada nos meus ficheiros, fui dar a um armazém semi-abandonado. Dei por mim nos arrabaldes da cidade, num espaço deprimente, devoto ao esquecimento, repleto dos restos do que fora. Acabei por forçar a fechadura, algo que jamais tinha feito e que confesso me ter dado um certo prazer pela sua transgressão. O espaço que encontrei no seu interior em nada tinha a ver com a decrépita atmosfera circundante. Era assético. Nele, um conjunto de objetos – mesas decorativas, mesinhas de cabeceira, mesas de jogo, objetos encapsulados em redomas de vidro, documentos catalogados em forma de diarístico romance e outra semelhante parafernália – alinhavam-se ordenadamente, aguardando-me.
Subitamente senti-me parte de tudo aquilo, como se sempre fora suposto encontrar aquela coleção. Como se esta fosse a única coisa desse Colecionador neste mundo e eu, o arconte de tal espólio. O guardião de tal cripta, ou cifra. Pensei longamente sobre todas aquelas coisas nos tempos que se seguiram; sobre aquele Arquivo Liminar, ou sobre o Espectro no (An)Arquivo do Colecionador que agora tomava conta de mim… ou melhor, pelo qual eu, agora, zelava. Emergia um catálogo que, à luz de Aby Warburg, me atreveria a chamar de… atlas. Acerca deste, Didi-Huberman terá dito:
Ao decompor a história presente, espectros, fantasmas, seres ou coisas anacrónicas emergem do atlas: é o impensável da repetição, o desconhecido das repressões e os ‘retornos do recalcado’. Talvez não haja reflexão – nem contestação política – sobre a história contemporânea sem uma atitude genealógica e arqueológica que revele os seus sintomas, os seus movimentos inconscientes. (Didi-Huberman, 2010, p.396)
Tendo isto em conta, tentarei ter o cuidado de não me perder: de não tentar em vão resolver o mistério, mas sim de mergulhar na atmosfera que este produz, prevenido também por Didi-Huberman:
Basta não sermos ingénuos, nem no que diz respeito aos arquivos nem no que diz respeito à montagem que a partir deles se produz: os primeiros não nos dão de todo a verdade ‘nua e crua’ do passado e só existem porque se constroem a partir do conjunto das questões ponderadas que lhes devemos colocar; a segunda, vem precisamente dar forma a esse conjunto de questões, daí a sua importância – estética e epistemológica – crucial. (Didi-Huberman, 2012, p. 170)
Prof. Dr. Hector Lib,
Das Allumfassende Archiv-Institut
Notas
1 “Ela mandou buscar um daqueles bolos pequenos e redondos chamados ‘madalenas’, que parecem ter sido moldados na valva estriada de uma vieira. E logo, maquinalmente, acabrunhado com o dia sombrio e com a perspetiva de um triste amanhã, levei à boca a colher de chá onde tinha deixado amolecer um pedaço de madalena. Mas, no mesmo instante em que o gole misturado com as migalhas do bolo tocou no meu palato, eu estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Fora invadido por um prazer delicioso, isolado, sem noção da sua causa. Imediatamente me tornara indiferentes a vicissitudes da vida, inofensivos os seus desastres, ilusória a sua brevidade, do mesmo modo que o amor opera, enchendo-me de uma essência preciosa: ou melhor, essa essência não estava em mim, era eu.” (Proust, 2023, p. 59)
2 Adaptado da faixa sonora Boxman (Mr. Niles) do álbum dos Tuxedomoon You (1987). Conta a estória de um homem que chega a casa para encontrar o caixote de um televisor. Caixote este que instintivamente, ou a partir de um chamamento que não consegue suprimir, o homem coloca na sua própria cabeça. A ambiência sonora, assim como as vozes, evocam as vibrações noir-mecânico-viscerais de body horror de um filme de David Cronenberg. A transcrição original da faixa sonora dita:
Coming home from work, a day like any other. But this day, I found a box. Or… a box found me. Just an ordinary box. Once containing a television set. But the way it looked. More… like… home. Then home. So, I sat down and looked at it for a while. And then I… tried it on… for size. And when I got my head inside. (muffled voice) I heard a different sound… all together. (Another strange voice appears) Welcome home Mr. Niles. We’ve been waiting for you… (voice transform into a maniacal laughter) (Geduldig, 1987).
Faixas citadas, escrita e voz de Bruce Geduldig; copyright e publicação de Crammed Music e Joeyboy Music, gravado no Daylight Studio (Bélgica); masterizado no Studio-Nord-Bremen (Alemanha).
3 A Escala de Kardashev é um método proposto pelo astrofísico soviético Nikolai Kardashev para medir o grau de desenvolvimento tecnológico de uma civilização. Foi apresentado originalmente em 1964 e utiliza-se de três etapas ou tipos, classificando as civilizações baseado na quantidade de energia coletada, utilizada e processada e seu aumento em escala logarítmica.
4 O paradoxo de Fermi propõe a aparente contradição entre as altas estimativas de probabilidade de existência de civilizações extraterrestres e a falta de evidências para, ou contato com tais civilizações.
5 O termo pós humanidade ou pós humano (Post Human Condition) está já conotado com o final do período de desenvolvimento social conhecido como humanismo (Pepperell, 1995, p. iv). Nesse sentido, o pós humano pensa as questões que a evolução tecnológica apresentou enquanto possibilidade para repensar os limites do biológico: a robótica, a comunicação, a prostética, a inteligência e vida artificiais, a nanotecnologia, a manipulação genética, para apontar alguns.
6 Na teoria lacaniana, o olhar é um fenómeno perturbador: o sujeito nunca é completamente dono da sua visão, pois o olhar do outro – o olhar do mundo – afeta-o e desafia a sua perceção e posição. O sujeito é, por assim dizer, olhado antes de poder olhar, o que gera uma sensação de perda de controlo ou de fragmentação da identidade. No seu livro Maus Novos Tempos. Arte, Crítica, Emergência. (2015), Hal Foster faz uma ligação significativa entre o conceito do olhar lacaniano e a arte contemporânea, que explora e expõem a tensão entre o que é visto e o que escapa à visão, entre o que é mostrado e o que é reprimido. Uma arte que joga com o desconforto do espectador, que resistem à compreensão total ou ao consumo fácil, num reflexo deste olhar lacaniano. Nesta ficção, a perspetiva sobre a qual o olhar é estudado adquire as características de realismo mágico, invertendo-se, como sugere o comentário de Žižek em Lacrimae Rerum (2005), para uma impossibilidade na qual o espectador “adquire” o poder do olhar do mundo, como quando um espectador vê além do ponto de mira limitado de um personagem num filme.
7 O filme Tenet (2020), de Christopher Nolan, inventa uma crono-tecnologia designada de “entropia invertida” na qual se permite ao utilizador da mesma viver o tempo ao contrário, ou seja, da frente para trás. A perceção de alguém que viaje pela entropia invertida, revela um mundo com a particularidade de alguém que faz play em reverse num qualquer dispositivo de imagem em movimento: as pessoas falam ao contrário, os carros movem-se para trás, a manhã dá lugar ao nascer do sol, que se põe para a madrugada do dia anterior, etc.
8 Com anarquivo, Dr. Lib refere-se às movimentações que procuravam expor, contrariar e anarquizar as tendências destrutivas do arquivo, essa prática que força modelos rígidos de memória que ordenam os acontecimentos de forma cronológica, alfabética, regional, geográfica, por grupo ou nação, enfim, de acordo com o cânone (About the Anarchive, n.d., The Future of Indeterminancy).
9 N’O Elogio da Infâmia (2006), Fernando José Pereira apresenta a infâmia como um espaço fronteiriço e dissensual, essencial à vida democrática, pois corporiza o antagonismo em contraste com a demanda liberal pelo consenso. Este território de resistência amoral, afastado das lógicas morais ou imorais, revela a vitalidade do conflito, especialmente num contexto contemporâneo onde o antagonismo está “pacificado” em mera competição agonística. A infâmia ressurge como um ponto de resistência contra o politicamente correto e a transparência consensual, sendo vista, tal como a arte, como um espaço radical e necessário para desafiar a conformidade e a acomodação no debate público.
10 Esta escultura de 9 metros de altura em bronze fundido representa um imponente aracnídeo que carrega dentro de si 32 ovos de mármore. Quando a vi desde a Alameda dos Liquidambares, lembrei-me imediatamente da imagem sublime do semelhante animal que atravessava, a passadas largas e lentas, a paisagem urbana de Toronto em Enemy (Villeneuve, 2012), filme que terá claramente bebido da mesma fonte referencial. Vi Maman (1999) aquando a exposição em Serralves, Louise Bourgeoise, Descalçar um Tormento em Janeiro de 2001. A peça, facultada pela fundação criada pela artista em 1984, The Easton Foundation, é uma de várias.
11 Diz Dr. Lib: Penso que a esta criatura acéfala, o Colecionador se possa estar a referir à complexa ideia de dispositivo de Agamben, a partir de Foucault: “(a.) É um conjunto heterogêneo, linguístico e não-linguístico, que inclui virtualmente qualquer coisa no mesmo título: discursos, instituições, edifícios, leis, medidas de polícia, proposições filosóficas etc. O dispositivo em si mesmo é a rede que se estabelece entre esses elementos. (b.) O dispositivo tem sempre uma função estratégica concreta e se inscreve sempre numa relação de poder. (c). Como tal, resulta do cruzamento de relações de poder e de relações de saber.” (Agamben, 2009, pp. 28-29)
12 Diz Dr. Lib: Embora deva admitir se não serão estas ficções, por vezes, mais depuradas na sua verdade que a nossa própria percepção da realidade?
13 Diz Dr. Lib: Nietzsche, Friedrich (1908) Ecce Hommo.
14 Diz Dr. Lib: De acordo com Vico, as sociedades passam por três estágios principais que se repetem ao longo do tempo: a Idade dos Deuses, marcada pelo domínio da religião e da mitologia, onde as leis e as instituições são guiadas por crenças sobrenaturais; a Idade dos Heróis, caracterizada pela formação de aristocracias e heróis míticos, com valores baseados na força e na honra e a Idade dos Homens, onde emerge a razão, a democracia e as leis humanas baseadas no consenso racional. No entanto, a Idade dos Homens antecede um colapso e o ciclo recomeça, voltando à Idade dos Deuses.
15 Diz Dr. Lib: Das Unheimliche ou o estranho-familiar, numa quase impossível tradução e sobre o qual o meu colega Sigmund grafou recentemente um sublime ensaio.
16 Diz Dr. Lib: O estimado leitor terá já reparado que de forma anacrónica o cito e também a outros, estando a escrever desde 1919, embora sobre isso prefira não me pronunciar.
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