{"id":1375,"date":"2026-03-27T11:07:41","date_gmt":"2026-03-27T11:07:41","guid":{"rendered":"https:\/\/under.fba.up.pt\/?post_type=research_text&#038;p=1375"},"modified":"2026-03-27T11:07:41","modified_gmt":"2026-03-27T11:07:41","slug":"gentileschi-e-bourgeois","status":"publish","type":"research_text","link":"https:\/\/under.fba.up.pt\/en\/textos\/gentileschi-e-bourgeois\/","title":{"rendered":"Reivindicar o poder: Autodefesa e vulnerabilidade em Gentileschi e Bourgeois"},"content":{"rendered":"\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><strong>Ao longo da histo\u0301ria, a ideia de poder do e sobre o corpo tem sido um tema central no mundo da arte. Representado nos seus va\u0301rios contextos &#8211; poli\u0301tico, social, fi\u0301sico, sexual -, o poder exibe-se enquanto ideia complexa entre o domi\u0301nio fi\u0301sico e a forc\u0327a de cara\u0301cter abstrato.<br>Frequentemente associado na arte a\u0300 viole\u0302ncia e a\u0300 brutalidade masculina, o poder promulga-se especialmente sobre o corpo feminino, inevitavelmente atrave\u0301s de um jogo de domi\u0301nio e submissa\u0303o. Ter poder sobre o pro\u0301prio corpo e\u0301 um dos aspectos mais importantes do trabalho das artistas da de\u0301cada de 1970, e que se prolonga ate\u0301 aos dias de hoje, atrav\u00e9s do questionamento das normas, representa\u00e7\u00f5es e controlos sociais que regulam o corpo \u2014 em especial o da mulher e\/ou o marginalizado. Mas na\u0303o so\u0301 na contemporaneidade se da\u0303o estas reivindicac\u0327o\u0303es, uma vez que a pintora barroca Artemisia Gentileschi dedicou grande parte da sua obra ao triunfo da heroi\u0301na feminina sobre um antagonista masculino, atrav\u00e9s de pr\u00e1ticas de autodefesa. De formas mais subjetivas, o poder e\u0301 reclamado por Louise Bourgeois atrave\u0301s da vulnerabilidade com que trata a sua poderosa identidade feminina. A mulher transforma-se numa la\u0302mina para enfrentar o trauma.<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<div style=\"height:57px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Nota introdut\u00f3ria<\/h2>\n\n\n\n<p id=\"ref1\">A natureza das interven\u00e7\u00f5es da cr\u00edtica e da hist\u00f3ria da arte feminista, juntamente com os estudos de g\u00e9nero, tornou vis\u00edvel a necessidade de repensar os modos de representa\u00e7\u00e3o dominantes \u2013 os de ontem e os de hoje. No decurso da hist\u00f3ria, em particular no panorama ocidental, \u00e9 poss\u00edvel constatar que a mulher ocupa um lugar de passividade e vulnerabilidade, sendo predominantemente contemplada pela arte enquanto musa (mero objeto do olhar) e inspira\u00e7\u00e3o por parte de um criador masculino. Por consequ\u00eancia, grande parte das imagens atrav\u00e9s das quais a mulher \u00e9 representada retratam narrativas do seu sil\u00eancio, da sua explora\u00e7\u00e3o f\u00edsica e da sua associa\u00e7\u00e3o \u00e0s tarefas do meio dom\u00e9stico \u2013 ela ocupa o segundo plano de um mundo protagonizado por homens. Esta premissa parece s\u00f3 se desligar do discurso imperante com o aparecimento e reconhecimento da mulher artista, que gradualmente foi tomando a liberdade de produzir exce\u00e7\u00f5es e de estabelecer uma linguagem mais inclusiva.<br>O feminismo e os movimentos de liberta\u00e7\u00e3o das mulheres deram origem a uma transforma\u00e7\u00e3o profunda dos conte\u00fados da sociedade contempor\u00e2nea, numa procura urgente de trazer \u00e0 luz as desigualdades de g\u00e9nero e as problem\u00e1ticas contidas na exclus\u00e3o de minorias. Nesse sentido, movimentos mais recentes como o #MeToo, criado em 2006 pela ativista Tarana Burke<sup><a href=\"#footnote1\">[1]<\/a> <\/sup>e popularizado pelo esc\u00e2ndalo de Harvey Weinstein<a href=\"#footnote2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>\u00a0 em 2017, tornaram vis\u00edvel a persist\u00eancia sist\u00e9mica da viol\u00eancia sexual e do ass\u00e9dio, demonstrando que a luta pela autonomia feminina n\u00e3o pertence apenas ao passado, mas permanece urgente e atual. Deste modo, o corpo \u00e9 hoje um foco central no pensamento de artistas mulheres contempor\u00e2neas &#8211; lugar de constru\u00e7\u00e3o e desconstru\u00e7\u00e3o da identidade; de opress\u00e3o e resist\u00eancia. As marcas do poder inscrevem-se no corpo<sup><a href=\"#footnote3\">[3]<\/a><\/sup>.<br>\u00c9 nesta conjuntura que este artigo prop\u00f5e analisar duas respostas aos efeitos do poder: a autodefesa e a vulnerabilidade. O conceito de autodefesa n\u00e3o se limita aqui \u00e0 prote\u00e7\u00e3o f\u00edsica contra uma agress\u00e3o, mas \u00e9 entendido como uma estrat\u00e9gia simb\u00f3lica, e tamb\u00e9m est\u00e9tica, de oposi\u00e7\u00e3o. Trata-se de um gesto de reapropria\u00e7\u00e3o do corpo e do livre-arb\u00edtrio enquanto territ\u00f3rios pol\u00edticos, historicamente sujeitos a mecanismos de subjuga\u00e7\u00e3o pela sociedade patriarcal. Este entendimento aproxima-se da an\u00e1lise de Michel Foucault sobre a natureza relacional dessa din\u00e2mica, segundo a qual \u201conde h\u00e1 poder h\u00e1 resist\u00eancia\u201d (1988:91). A autodefesa pode, assim, ser pensada como um movimento intr\u00ednseco \u00e0s pr\u00f3prias rela\u00e7\u00f5es que procuram disciplinar e submeter o indiv\u00edduo. Nesse sentido, a pr\u00e1tica art\u00edstica surge como resposta e gesto de reinscri\u00e7\u00e3o, capaz de desestabilizar as narrativas que fixaram a mulher na posi\u00e7\u00e3o de objeto passivo.<br>Por sua vez, a vulnerabilidade \u00e9, neste encadeamento, abordada n\u00e3o enquanto fraqueza mas como mecanismo de prote\u00e7\u00e3o que abre portas ao trauma para produzir novos significados. Longe de representar mera passividade, ela constitui um espa\u00e7o de abertura onde a ferida (f\u00edsica ou subjetiva) \u00e9 convertida em linguagem, permitindo que a experi\u00eancia do dano seja lida como forma de afirma\u00e7\u00e3o do sujeito art\u00edstico. Tal como sugere Judith Butler, o corpo \u00e9 simultaneamente \u201cmortal, vulner\u00e1vel e dotado de ag\u00eancia, estando inevitavelmente exposto ao olhar e \u00e0 viol\u00eancia do outro\u201d (2004: 26), o que faz com que da vulnerabilidade se revelem possibilidades de transforma\u00e7\u00e3o e de metamorfose.<br>Partindo de obras de Artemisia Gentileschi, pintora italiana do per\u00edodo barroco ativa na primeira metade do s\u00e9culo XVII, e Louise Bourgeois, artista multidisciplinar cuja produ\u00e7\u00e3o se desenvolve ao longo do s\u00e9culo XX e in\u00edcio do XXI, procura-se compreender de que modo cada artista reconfigura a rela\u00e7\u00e3o entre corpo e viol\u00eancia, superando a condi\u00e7\u00e3o da mulher como objeto passivo de representa\u00e7\u00e3o, assim como a barreira hist\u00f3rica que as separa. Nas obras em an\u00e1lise, a autodefesa emerge como linguagem literal e encenada, e a vulnerabilidade surge como uma reinterpreta\u00e7\u00e3o criativa do trauma.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Taking Back Power &#8211; Reivindicar o Poder<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p id=\"ref4\">O conceito tr\u00edade \u201cmulher-arte-poder\u201d<sup><a href=\"#footnote4\" data-type=\"internal\" data-id=\"#_ftnref4\">[4]<\/a><\/sup> apresentado no ensaio de Linda Nochlin (1989) \u00e9 uma tentativa de deslindar os v\u00e1rios discursos do poder que se relacionam com as diferen\u00e7as de g\u00e9nero no \u00e2mbito das narrativas visuais. A ideia de dom\u00ednio\/submiss\u00e3o faz parte de uma din\u00e2mica bin\u00e1ria entre a personagem que cont\u00e9m \u201cmaior for\u00e7a\u201d ou autoridade superior e a de menor \u201cvis\u201d. Da representa\u00e7\u00e3o da brutalidade f\u00edsica expl\u00edcita \u00e0 viol\u00eancia psicol\u00f3gica ou simb\u00f3lica, v\u00e1rias s\u00e3o as formas de atua\u00e7\u00e3o deste conceito \u2013 poder, enquanto posi\u00e7\u00e3o de dom\u00ednio sobre outros -, que aqui interessa explorar a partir do ponto de vista da mulher artista e das narrativas de contrapoder por ela criadas.<br>Embora seja sobretudo a partir dos anos 70 do s\u00e9culo XX que esta miss\u00e3o de reivindica\u00e7\u00e3o do poder e do controlo sobre o pr\u00f3prio corpo \u00e9 assumida por mulheres artistas \u2014 que se multiplicam ao conquistarem um espa\u00e7o leg\u00edtimo no mundo da arte \u2014, existiram casos precursores que antecederam essas problem\u00e1ticas. Entre eles, destaca-se a obra da pintora barroca italiana Artemisia Gentileschi e a sua habilidade em explorar conte\u00fados de cariz que hoje poderia ser caracterizada como feminista<sup><a href=\"#footnote5\">[5]<\/a><\/sup> de forma poderosa e objetiva, um feito quase inconceb\u00edvel para o seu tempo. O cr\u00edtico e historiador de arte Jonathan Jones (2020: 5) acrescenta ainda que Artemisia Gentileschi foi \u201cuma grande mulher numa \u00e9poca que normalmente associamos aos grandes homens\u201d, sendo que o livro que dedica \u00e0 sua biografia e produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica serve de guia de an\u00e1lise \u00e0 presente investiga\u00e7\u00e3o.<br>Inserida numa \u00e9poca de influ\u00eancia predominantemente masculina, em que as tem\u00e1ticas mais relevantes da arte eram a pintura hist\u00f3rica e religiosa, Gentileschi distingue-se pela \u00edndole imperativa com que constr\u00f3i a protagonista her\u00f3ica das suas narrativas e pela forma como nos introduz \u00e0s suas pr\u00f3prias experi\u00eancias. Em \u201cSusana e os anci\u00e3os\u201d (1610), uma obra ex\u00edmia de arte barroca de um tema do Antigo Testamento, a artista retrata duramente o conflito em que Susana se encontra, uma jovem que durante o banho \u00e9 sobressaltada pela presen\u00e7a de dois homens mais velhos da sua comunidade e se debate contra os olhares lascivos e os seus avan\u00e7os sexuais. Ao contr\u00e1rio de outras reprodu\u00e7\u00f5es de autores masculinos, nas quais o corpo de Susana e\u0301 erotizado e representado em posic\u0327o\u0303es comprometedoras, com expresso\u0303es faciais difi\u0301ceis de decifrar &#8211; um misto de confusa\u0303o e prazer em que a vi\u0301tima parece ser cu\u0301mplice dos atos do seu agressor -, na obra de Artemisia Gentileschi ela mostra a sua realidade indefesa. A artista decide, assim, afastar-se de uma erotizac\u0327a\u0303o lu\u0301dica deste tema para descrever severamente uma problema\u0301tica importante e evoca o seu pro\u0301prio contexto enquanto mulher, vi\u0301tima de situac\u0327o\u0303es semelhantes. Revelar a pro\u0301pria posic\u0327a\u0303o de fragilidade, inevita\u0301vel ate\u0301 pela questa\u0303o nume\u0301rica no caso de Susana, para denunciar e por a cru atrocidades e situac\u0327o\u0303es de asse\u0301dio e\u0301 uma forma simbo\u0301lica de empoderamento. Pretende-se com isto dizer que o corpo de Susana, embora irremediavelmente submisso, e\u0301 cristalizado nesta obra como uma forc\u0327a de resiste\u0302ncia e de recusa perante a tentativa de dominac\u0327a\u0303o masculina.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:36px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"721\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/susana_e_os_anciaos-721x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1379\" srcset=\"https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/susana_e_os_anciaos-721x1024.jpeg 721w, https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/susana_e_os_anciaos-211x300.jpeg 211w, https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/susana_e_os_anciaos-768x1091.jpeg 768w, https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/susana_e_os_anciaos-8x12.jpeg 8w, https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/susana_e_os_anciaos.jpeg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 721px) 100vw, 721px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>Figura 1: <em>Susana e os Ancia\u0303os<\/em>, Artemisia Gentileschi, o\u0301leo s\/ tela, 1610.<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">Na segunda versa\u0303o da sua pintura assombrosa \u201cJudite decapitando Holofernes\u201d (1621), num formato mais amplo que expande lateralmente o campo pict\u00f3rico e se assemelha a um ecr\u00e3, assistimos a uma interpretac\u0327a\u0303o iconogra\u0301fica do poder mais expli\u0301cita e eficaz: a mulher forte que derruba os vilo\u0303es do sexo masculino. Judite e a serva na\u0303o assumem posic\u0327o\u0303es subordinadas, mas antes movimentos corporais drama\u0301ticos numa ac\u0327a\u0303o violenta de degolac\u0327a\u0303o do inimigo. O sangue esguicha do pescoc\u0327o de Holofernes para o peito de Judite de forma realista, como uma cena retirada do \u201ccinema gore\u201d, e o seu corpo debate-se enquanto e\u0301 vigorosamente detido pela robustez dos brac\u0327os de ambas as mulheres. Aqui, o ato de decapita\u00e7\u00e3o \u00e9 evidente e domina o primeiro plano da composi\u00e7\u00e3o, direcionado o olhar do espectador para a intensidade desta cena. A espada que executa Holofernes funciona como ve\u00edculo de uma vingan\u00e7a metaf\u00f3rica frequentemente associada ao trauma biogr\u00e1fico da pr\u00f3pria Artemisia Gentileschi, como teoriza a historiadora Mary Garrard:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u201cThe subject of the Judith Beheading Holofernes relates to the traumatic event that Gentileschi experienced, and some sources have stated that Judith as the main protagonist in the painting is, in fact, a self-portrait of the artist herself.\u201d (Garrard, 1989: 664)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<div style=\"height:66px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"804\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Judite-Decapitando-Holofernes-804x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1380\" srcset=\"https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Judite-Decapitando-Holofernes-804x1024.jpeg 804w, https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Judite-Decapitando-Holofernes-236x300.jpeg 236w, https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Judite-Decapitando-Holofernes-768x978.jpeg 768w, https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Judite-Decapitando-Holofernes-9x12.jpeg 9w, https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Judite-Decapitando-Holofernes.jpeg 1178w\" sizes=\"auto, (max-width: 804px) 100vw, 804px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>Figura 2: <em>Judite Decapitando Holofernes<\/em>, Artemisia Gentileschi, o\u0301leo s\/tela, 1621.<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\" id=\"ref6\">Estes atos de oposi\u00e7\u00e3o s\u00e3o rea\u00e7\u00f5es aos mecanismos intr\u00ednsecos do poder, como a leitura foucaultiana<sup><a href=\"#footnote6\">[6]<\/a><\/sup> permite compreender. Na vis\u00e3o de Michel Foucault, o poder estabelece-se na rela\u00e7\u00e3o entre os indiv\u00edduos: uma a\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 outra a\u00e7\u00e3o, onde diversas condutas, intera\u00e7\u00f5es e modos de comportamento podem acontecer. Desta forma, fabricando essas v\u00e1rias possibilidades de a\u00e7\u00e3o e moldando as respostas de cada indiv\u00edduo, os des\u00edgnios do poder controlam tamb\u00e9m o desejo de agir. No caso da autodefesa, conceito em an\u00e1lise na obra desta pintora, pode ser interpretada n\u00e3o enquanto gesto isolado de nega\u00e7\u00e3o absoluta do poder, mas como uma pr\u00e1tica situada dentro da rede de rela\u00e7\u00f5es que o constitui &#8211; uma forma plural de resist\u00eancia que se vai construindo sobre v\u00e1rias camadas (por vezes subtil, outras vezes explosiva). Longe de ser apenas o reverso passivo da domina\u00e7\u00e3o, a autodefesa torna-se numa for\u00e7a produtiva que participa ativamente na constru\u00e7\u00e3o de novas possibilidades de a\u00e7\u00e3o e de identidade. Assim, na pr\u00e1tica art\u00edstica de Artemisia Gentileschi, n\u00e3o simboliza apenas a rea\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia, mas a inscri\u00e7\u00e3o do corpo da mulher como sujeito estrat\u00e9gico dentro das rela\u00e7\u00f5es de poder, capaz de ocupar simultaneamente a posi\u00e7\u00e3o de alvo e de agente, transformando a vulnerabilidade em campo de interven\u00e7\u00e3o e culminando na execu\u00e7\u00e3o final.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">*<\/p>\n\n\n\n<p>Dando o salto para o final da de\u0301cada de 1960, uma nova vanguarda decidiu rejeitar o mercado da arte para dar espac\u0327o ao aparecimento da arte conceptual e das pra\u0301ticas efe\u0301meras como a performance. Os movimentos de emancipac\u0327a\u0303o feminina, na sua luta pela igualdade, tiveram tambe\u0301m um enorme impacto no mundo da arte e impulsionaram o aparecimento de um grande nu\u0301mero de mulheres artistas que estabeleceram a sua popularidade nas de\u0301cadas seguintes. Reativas, atentas e emergentes, Marina Abramovic\u0301 e Yoko Ono desafiaram o poder ao oferecer o controlo ao outro: o espectador que manuseia os seus corpos e se serve dos utensi\u0301lios que tem a\u0300 ma\u0303o para participar na obra. Por sua vez, Carolee Schneemann e Valie Export recorreram a\u0300 expressa\u0303o sexual para reivindicar o seu lugar num meio patriarcal; Paula Rego explorou o corpo submisso e obediente, carregado de dor fi\u0301sica e psicolo\u0301gica, nas suas composic\u0327o\u0303es picto\u0301ricas sobre o quotidiano dome\u0301stico; entre outras artistas com diferentes interpretac\u0327o\u0303es.<br>Para ale\u0301m dos novos rostos que compuseram o panorama arti\u0301stico da segunda metade do se\u0301c XX, houve tambe\u0301m espac\u0327o para o reconhecimento e apreciac\u0327a\u0303o de artistas como Louise Bourgeois, que iniciou o seu percurso na de\u0301cada de 1940. Ofuscada pelos artistas masculinos do expressionismo abstrato da altura, foi atrave\u0301s do seu imagina\u0301rio invulgar e caracteri\u0301stico que se opo\u0302s subsequentemente a essa dominac\u0327a\u0303o, regressando em forc\u0327a na e\u0301poca da revoluc\u0327a\u0303o sexual e do movimento dos direitos das mulheres.<br>Na obra da artista, d\u00e1-se um fen\u00f3meno \u00fanico dentro deste estudo: o poder e a vulnerabilidade deixam de constituir p\u00f3los opostos e tornam-se componentes interdependentes de uma mesma identidade. A vulnerabilidade em Louise Bourgeois consiste na capacidade de mostrar o que \u00e9 fr\u00e1gil, inst\u00e1vel ou doloroso, convertendo essa exposi\u00e7\u00e3o em for\u00e7a simb\u00f3lica, em que o corpo \u00e9 simultaneamente lugar de amea\u00e7a e prote\u00e7\u00e3o. As suas esculturas e instala\u00e7\u00f5es criam uma atmosfera de intimidade inquietante, incorporando tens\u00f5es sexuais com viol\u00eancias subtis e lembran\u00e7as de inf\u00e2ncia que sustentam a constru\u00e7\u00e3o da sua subjetividade art\u00edstica.<br>Criando um di\u00e1logo hist\u00f3rico com o trabalho de Artemisia Gentileschi, em Louise Bourgeois d\u00e1-se a derradeira fusa\u0303o entre mulher e objeto cortante: a espada de Judite que rasga o pescoc\u0327o de Holofernes, encontra na s\u00e9rie \u201cFemmes Couteaux\u201d uma transposi\u00e7\u00e3o aleg\u00f3rica, em que o corpo se transforma ele pr\u00f3prio numa l\u00e2mina. Essa l\u00e2mina torna-se extens\u00e3o e express\u00e3o da vulnerabilidade transformada em for\u00e7a &#8211; a artista afirma a sua pr\u00f3pria energia protetora e reinventa o gesto da autodefesa.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:36px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"660\" height=\"503\" src=\"https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/femmecouteau.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1381\" srcset=\"https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/femmecouteau.jpg 660w, https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/femmecouteau-300x229.jpg 300w, https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/femmecouteau-16x12.jpg 16w\" sizes=\"auto, (max-width: 660px) 100vw, 660px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>Figura 3: <em>Femme Couteau<\/em>, Louise Bourgeois, m\u00e1rmore, 1969-70.<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<div style=\"height:22px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"850\" height=\"650\" src=\"https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Femme-Couteau-2002.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1382\" srcset=\"https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Femme-Couteau-2002.png 850w, https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Femme-Couteau-2002-300x229.png 300w, https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Femme-Couteau-2002-768x587.png 768w, https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Femme-Couteau-2002-16x12.png 16w\" sizes=\"auto, (max-width: 850px) 100vw, 850px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>Figura 3: <em>Femme Couteau<\/em>, Louise Bourgeois, m\u00e1rmore, 1969-70.<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p id=\"ref7\">As v\u00e1rias vers\u00f5es destas \u201cmulheres-faca\u201d incorporam a polaridade entre o destrutivo e o sedutor, colocando a nu a natureza do ser humano e a necessidade de se defender perante o desconhecido ou a ag\u00eancia atacante. Nas palavras da artista sobre esta s\u00e9rie, a mulher \u201csente-se vulner\u00e1vel porque pode ser ferida pelo p\u00e9nis e, por isso, tenta congregar a arma do agressor\u201d<sup><a href=\"#footnote7\" data-type=\"internal\" data-id=\"#ftnref7\">[7]<\/a><\/sup>. Louise Bourgeois surge, assim, como a pr\u00f3pria personifica\u00e7\u00e3o da \u201cFemme Couteau\u201d: a artista que corta, fatia, talha e que vive essa ambival\u00eancia entre a tenacidade e a vulnerabilidade.<br>Nesta linha de pensamento, a vulnerabilidade configura-se como uma metamorfose que desloca o sujeito de um estado passivo para um estado criativo, na medida em que transforma fragilidade (individual e subjetiva) em pot\u00eancia e espa\u00e7o de constru\u00e7\u00e3o pl\u00e1stica. Abandona-se, assim, a l\u00f3gica da submiss\u00e3o para se entrar no campo da inven\u00e7\u00e3o, onde a identidade se constr\u00f3i atrav\u00e9s de tens\u00f5es e o corpo feminino se assume como mat\u00e9ria principal de cria\u00e7\u00e3o, e tamb\u00e9m de autoprote\u00e7\u00e3o. Como aborda Judith Butler na confer\u00eancia \u201cHow Vulnerability Can Empower Resistance: A Keynote by Judith Butler\u201d, realizada em 2022, a vulnerabilidade pode ser tamb\u00e9m uma fonte de resist\u00eancia e empoderamento:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u201cWe may think that either we are vulnerable or we resist and that resistance consists of overcoming vulnerability. The short version of my argument is that resistance can be a way of mobilizing vulnerability and that even fighting back or triumphing in a fight does not negate vulnerability.\u201d (Butler, 2022)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Para Judith Butler, a vulnerabilidade opera como forma de subvers\u00e3o porque, ao exporem a sua fragilidade, os corpos desafiam os poderes institu\u00eddos e transformam a forma como s\u00e3o reconhecidos. Assim, a vulnerabilidade n\u00e3o reduz o corpo \u00e0 fragilidade, mas afirma-o como espa\u00e7o de pot\u00eancia e ag\u00eancia, afastando-se da ideia de que ele seja uma mera superf\u00edcie passiva de inscri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m um dos aspectos da produ\u00e7\u00e3o de Louise Bourgeois que se prende com esse conceito de vulnerabilidade \u00e9 a apropria\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica do falo, tradicionalmente entendido como signo de autoridade patriarcal e fertilidade. Louise Bourgeois domestica-o, absorve-o, reconstr\u00f3i-o e converte-o em elemento de defesa &#8211; transforma-se nele e protege-se. Dito isto, a forma fa\u0301lica povoa as suas esculturas e instalac\u0327o\u0303es; metamorfoseia-se com outros elementos e partes do corpo (funde-se com seios, casulos e assume configurac\u0327o\u0303es animalescas), concedendo-lhes forc\u0327a. No famoso retrato da autoria de Robert Mapplethorpe, Louise Bourgeois carrega debaixo do bra\u00e7o a obra \u201cFillette\u201d(1968), posicionando-se como a sua mestre, numa invers\u00e3o radical de pap\u00e9is que dialoga com a hist\u00f3ria da representa\u00e7\u00e3o do poder. Tal como Donald Kuspit (2008) repara, a artista \u201cdomestica\u201d o falo, transformando-o num prolongamento da sua cria\u00e7\u00e3o e invertendo, assim, a l\u00f3gica da submiss\u00e3o:<br>\u201cShe says she\u2019s afraid of it, but she doesn\u2019t look fearful in the photograph. She triumphs over the phallus, completely and unequivocally dominating it. Bourgeois loves her power over it &#8211; the power of handling it, of feeling its firmness and erectness, even making it erect and firm. It is her slave, and she is its absolute master.\u201d (Kuspit, 2008)<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:39px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1015\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Louise-Bourgeois-e-Fillette-1015x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1383\" srcset=\"https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Louise-Bourgeois-e-Fillette-1015x1024.jpeg 1015w, https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Louise-Bourgeois-e-Fillette-297x300.jpeg 297w, https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Louise-Bourgeois-e-Fillette-150x150.jpeg 150w, https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Louise-Bourgeois-e-Fillette-768x775.jpeg 768w, https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Louise-Bourgeois-e-Fillette-12x12.jpeg 12w, https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Louise-Bourgeois-e-Fillette.jpeg 1522w\" sizes=\"auto, (max-width: 1015px) 100vw, 1015px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>Figura 5: <em>Louise Bourgeois (e Fillette)<\/em>, Robert Mapplethorpe, fotografia, 1982.<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>O di\u00e1logo entre viol\u00eancia e subjetividade manifesta-se ainda mais intensamente na obra \u201cThe Destruction of the Father\u201d (1974), uma explora\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica do poder do pai que condensa em si o trauma, a raiva e a fantasia de liberta\u00e7\u00e3o. Esta instala\u00e7\u00e3o recria o cen\u00e1rio visceral de uma caverna onde fragmentos org\u00e2nicos evocam um corpo fragmentado. Aqui, o ato de destrui\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 literal como acontece nas decapita\u00e7\u00f5es de Artemisia Gentileschi, mas psicol\u00f3gico e cat\u00e1rtico: a demoli\u00e7\u00e3o da figura paterna funciona como um gesto performativo de tomada de poder &#8211; um poder que se manifesta de forma \u00edntima e afetiva, enraizado no subconsciente e no territ\u00f3rio da mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:32px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"750\" height=\"562\" src=\"https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/the-destruction-of-the-father-1974.jpgLarge.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1384\" srcset=\"https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/the-destruction-of-the-father-1974.jpgLarge.jpg 750w, https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/the-destruction-of-the-father-1974.jpgLarge-300x225.jpg 300w, https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/the-destruction-of-the-father-1974.jpgLarge-16x12.jpg 16w\" sizes=\"auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>Figura 6: <em>The Destruction of the Father<\/em>, Louise Bourgeois, instala\u00e7\u00e3o, 1974.<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Assim, ao longo de diferentes fases e linguagens, Louise Bourgeois recupera a autoridade sobre o corpo, a inf\u00e2ncia e o trauma, transmutando vulnerabilidade em for\u00e7a e intimidade em gesto pol\u00edtico. Onde Artemisia Gentileschi encontra no corpo feminino um campo de batalha contra o olhar masculino, Louise Bourgeois encontra um espa\u00e7o ps\u00edquico, el\u00e1stico e metam\u00f3rfico, em que o poder \u00e9 continuamente reconfigurado. Juntas, as duas artistas demonstram que a mulher artista n\u00e3o responde apenas ao poder: recria-o.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Notas conclusivas<\/h2>\n\n\n\n<p id=\"ref8\">Em conclus\u00e3o, a an\u00e1lise destas artistas permite compreender que a hist\u00f3ria da representa\u00e7\u00e3o do empoderamento feminino n\u00e3o \u00e9 linear, mas atravessada por gestos de ruptura que, ainda que separados por s\u00e9culos, dialogam entre si e partilham experi\u00eancias. Se em Artemisia Gentileschi a autodefesa \u00e9 encenada no plano do vis\u00edvel, atrav\u00e9s de atos de resist\u00eancia, da espada e do confronto direto, em Louise Bourgeois ela desloca-se para o territ\u00f3rio da vulnerabilidade, que encontra na mem\u00f3ria e no subconsciente uma elabora\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica que serve como um escudo de prote\u00e7\u00e3o.<br>Desta forma, autodefesa e a vulnerabilidade, longe de se exclu\u00edrem, afirmam-se como estrat\u00e9gias complementares: uma exp\u00f5e o conflito expl\u00edcito exterior, a outra o conflito subjetivo interno. Ambas convergem no desafio e questionamento das estruturas patriarcais e na afirma\u00e7\u00e3o da mulher enquanto sujeito de enuncia\u00e7\u00e3o.<br>Louise Bourgeois apodera-se esteticamente da forma masculina e procura encontrar um equil\u00edbrio nessa posi\u00e7\u00e3o de ambival\u00eancia do g\u00e9nero, personificando o \u201cfeminino-masculino<sup><a href=\"#footnote8\">[8]<\/a><\/sup>\u201d\u00a0. Por seu lado, Artemisia Gentileschi repele e destro\u0301i a figura do homem, atrave\u0301s da interpretac\u0327a\u0303o simbo\u0301lica que faz das tema\u0301ticas religiosas que n\u00e3o deixam escapar o agressor.<br>Embora estas artistas interpretem o conceito de poder e de auto empoderamento de uma forma pessoal, isto e\u0301, relativa a\u0300s suas experie\u0302ncias individuais e a eventos espec\u00edficos que a vida lhes proporcionou, ambas conseguem tocar em mate\u0301rias urgentes e ainda hoje indispensa\u0301veis, apesar do intervalo temporal \u2013 a denu\u0301ncia do corpo oprimido e da voz silenciada. Como resposta, produziram obras que propo\u0303em a derradeira fusa\u0303o entre mulher e objeto cortante: Judite de Artemisia Gentileschi rasga o pescoc\u0327o de Holofernes com a espada, como um prolongamento do pro\u0301prio brac\u0327o; as \u201cFemmes Couteaux\u201d de Louise Bourgeois assumem a forma fa\u0301lica do agressor e revelam uma natureza violenta sendo que estas esculturas sa\u0303o, ao mesmo tempo, la\u0302minas.<br>Atuando sobre o pu\u0301blico, em jeito de pulsa\u0303o e repulsa\u0303o, os produtos em causa sera\u0303o sempre uma mercadoria fi\u0301sica e arti\u0301stica cujo cerne e\u0301 causador de dissi\u0301dio e atrac\u0327a\u0303o. Reivindicar o poder e\u0301 gerar novos conteu\u0301dos, explorar novos significados e interpretar o passado com o olhar no presente. Mas na\u0303o sera\u0301 assim a melhor arte, essa que agita e desbanaliza o consumo consuetudina\u0301rio?<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:72px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Notas<\/h2>\n\n\n\n<p id=\"footnote1\"><a href=\"#ref1\">[1]<\/a> A sobrevivente e ativista Tarana Burke fundou o movimento #MeToo para ajudar outras sobreviventes de viol\u00eancia sexual, em especial jovens negras do ensino b\u00e1sico da cidade de Selma, nos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"footnote2\"><a href=\"#ref2\">[2]<\/a> Este esc\u00e2ndalo envolveu mais de 80 alega\u00e7\u00f5es de abuso sexual contra o produtor cinematogr\u00e1fico.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"footnote3\"><a href=\"#ref3\">[3]<\/a> Ana Gabriela Macedo (2011),\u00a0<em>Mulheres, arte e poder: uma narrativa de contrapoder?<\/em>, Brasil: Estudos de Literatura Brasileira Contempor\u00e2nea, p.3.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"footnote4\"><a href=\"#ref4\" data-type=\"internal\" data-id=\"#_ftnref4\">[4]<\/a> Linda Nochlin (1989),\u00a0<em>Women, Art and Power and other Essays<\/em>, London:Thames and Hudson, p.2.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"footnote5\"><a href=\"#ref5\">[5]<\/a> Como sugere Lisa Kaborycha na confer\u00eancia \u201cPower and Sexuality in Renaissance Art\u201d, 2021.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"footnote6\"><a href=\"#ref6\">[6]<\/a> Michel Foucault (1976),\u00a0<em>Hist\u00f3ria da Sexualidade I,<\/em>\u00a0Rio de Janeiro: Edi\u00e7\u00f5es Graal, 1988, p. 91.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"footnote7\"><a href=\"#ref7\">[7]<\/a> Louise Bourgeois citada em Dorothy Seiberling,\u00a0<em>The Female View of Erotica<\/em>, New York Magazine, February 11, 1974.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"footnote8\"><a href=\"#ref8\">[8]<\/a> Express\u00e3o que Fr\u00e9d\u00e9rique Joseph-Lowery sugere no ensaio \u201cThrough the Eye of a Needle<em>\u201d\u00a0<\/em>(2010).<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:64px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Refer\u00eancias<\/h2>\n\n\n\n<p>Butler, Judith (1990),&nbsp;<em>Problemas de G\u00e9nero<\/em>, Lisboa: Orfeu Negro, 2017.<\/p>\n\n\n\n<p>Butler, Judith (2004),&nbsp;<em>Precarious Life: The Powers of Mourning and Violence,<\/em>&nbsp;London: Verso.<\/p>\n\n\n\n<p>Butler, Judith Butler (2022),&nbsp;<em>How Vulnerability Can Empower Resistance: A Keynote by<\/em> <em>Judith Butler,<\/em> Dispon\u00edvel em:.https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=-iegUZNw9rk, Acedido em 08\/02\/2026.<\/p>\n\n\n\n<p>Dorothy Seiberling,&nbsp;<em>The Female View of Erotica<\/em>, New York Magazine, February 11, 1974. Editors, P. (2015),&nbsp;<em>Body of Art<\/em>, London: Phaidon Press.<\/p>\n\n\n\n<p>Foucault, Michel (1975),&nbsp;<em>Vigiar e Punir: Nascimento da Pris\u00e3o<\/em>, Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es 70, 2013.<\/p>\n\n\n\n<p>Foucault, Michel (1976),&nbsp;<em>Hist\u00f3ria da Sexualidade I,&nbsp;<\/em>Rio de Janeiro: Edi\u00e7\u00f5es Graal, 1988.<\/p>\n\n\n\n<p>Garrard, Mary D. (1989),&nbsp;<em>Artemisia Gentileschi: The Image of the Female Hero in<\/em> <em>Italian Baroque Art<\/em>. Princeton: Princeton University Press.Hooks, Bell (1984),&nbsp;<em>Teoria Feminista: Da Margem ao Centro<\/em>, Lisboa: Orfeu Negro, 2020.<\/p>\n\n\n\n<p>Jones, Jonathan (2020),&nbsp;<em>Artemisia Gentileschi<\/em>, London: Laurence King.<\/p>\n\n\n\n<p>Joseph-Lowery, Fr\u00e9d\u00e9rique (2010),&nbsp;<em>Through the Eye of a Needle<\/em>. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.artnet.com\/magazineus\/features\/lowery\/louise-bourgeois6-15-10.asp. Acedido em 08\/12\/2025.<\/p>\n\n\n\n<p>Kaborycha, Lisa (2021),&nbsp;<em>Power and Sexuality in Renaissance Art<\/em>. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=1BOTfXxaaxE&amp;list=LL&amp;index=3&amp;t=853s.\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=1BOTfXxaaxE&amp;list=LL&amp;index=3&amp;t=853s.<\/a> Acedido em 12\/12\/2025.<\/p>\n\n\n\n<p>Kuspit, Donald (2008),&nbsp;<em>The Phallic Woman<\/em>. Dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/www.artnet.com\/magazineus\/features\/kuspit\/bourgeois-the-phallic-woman11-3-10.asp\">https:\/\/www.artnet.com\/magazineus\/features\/kuspit\/bourgeois-the-phallic-woman11-3-10.asp<\/a>, Acedido em 12\/12\/2025.<\/p>\n\n\n\n<p>Macedo, Ana Gabriela (2011),&nbsp;<em>Mulheres, arte e poder: uma narrativa de contrapoder?<\/em>, Brasil: Estudos de Literatura Brasileira Contempor\u00e2nea.<\/p>\n\n\n\n<p>Miller, Juliet (2008),&nbsp;<em>Power and vulnerability in the work of Louise Bourgeois in The<\/em> <em>Creative Feminine and her Discontents<\/em>, London: Routledge.<\/p>\n\n\n\n<p>Nochlin, Linda (1989).&nbsp;<em>Women, Art and Power and other Essays<\/em>, London: Thames and Hudson.<\/p>\n\n\n\n<p>Piland, Sherry (1994).&nbsp;<em>Women Artists: A Historical, Contemporary and Feminist<\/em> <em>Bibliography,<\/em>&nbsp;PhilPapers.<\/p>\n\n\n\n<p>Reilly, Maura (2015),&nbsp;<em>Women Artists. The Linda Nochlin Reader<\/em>, London: Thames and Hudson.<\/p>\n\n\n\n<p>Vreeland, Susan (2002),&nbsp;<em>The Passion of Artemisia: A Novel<\/em>, London: Publish Penguin Books.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Nascida em 1992 em Viseu, Francisca Sousa conduz o seu trabalho em torno de quest\u00f5es sobre a intimidade, a sexualidade e o corpo submisso. A sua pr\u00e1tica art\u00edstica insere-se num universo pr\u00f3prio, onde pintura, ilustra\u00e7\u00e3o e performance se encontram.\u2028Cria obras que desembara\u00e7am o pudor, em retratos que exploram as linhas peculiarmente t\u00e9nues do universo er\u00f3tico, igualmente transversais \u00e0 pureza e \u00e0 viol\u00eancia.<br>Francisca Sousa \u00e9 licenciada em Pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, realizou um programa de estudos em Londres, na Central Saint Martins, em 2012, e concluiu o mestrado em Arte Multim\u00e9dia, na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, com a disserta\u00e7\u00e3o &#8220;Soft Violence: Linguagem e Metamorfose&#8221;. Exp\u00f5e desde 2014 e encontra-se a frequentar o Doutoramento em Artes Pl\u00e1sticas na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. <br><br>@techorpsen<br><a href=\"http:\/\/www.cargocollective.com\/fsousa\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">www.cargocollective.com\/fsousa<\/a><\/h5>\n","protected":false},"author":18,"featured_media":1401,"template":"","text_type":[19],"topic":[27],"class_list":["post-1375","research_text","type-research_text","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","text_type-artigos","topic-understatement_1"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/under.fba.up.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/research_text\/1375","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/under.fba.up.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/research_text"}],"about":[{"href":"https:\/\/under.fba.up.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/research_text"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/under.fba.up.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/18"}],"version-history":[{"count":50,"href":"https:\/\/under.fba.up.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/research_text\/1375\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1472,"href":"https:\/\/under.fba.up.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/research_text\/1375\/revisions\/1472"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/under.fba.up.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1401"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/under.fba.up.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1375"}],"wp:term":[{"taxonomy":"text_type","embeddable":true,"href":"https:\/\/under.fba.up.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/text_type?post=1375"},{"taxonomy":"topic","embeddable":true,"href":"https:\/\/under.fba.up.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/topic?post=1375"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}