{"id":1315,"date":"2026-03-04T11:38:06","date_gmt":"2026-03-04T11:38:06","guid":{"rendered":"https:\/\/under.fba.up.pt\/?post_type=research_text&#038;p=1315"},"modified":"2026-03-05T12:28:37","modified_gmt":"2026-03-05T12:28:37","slug":"o-arquivo-liminar","status":"publish","type":"research_text","link":"https:\/\/under.fba.up.pt\/en\/textos\/o-arquivo-liminar\/","title":{"rendered":"The Liminal Archive"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"688\" src=\"https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/dr_lib_1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1341\" srcset=\"https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/dr_lib_1024.jpg 1024w, https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/dr_lib_1024-300x202.jpg 300w, https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/dr_lib_1024-768x516.jpg 768w, https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/dr_lib_1024-18x12.jpg 18w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n<p><strong><span style=\"text-decoration: underline;\">Resumo<\/span><\/strong><br \/><strong><em>O Arquivo Liminar<\/em>* constitui um texto h\u00edbrido \u2013 entre fic\u00e7\u00e3o especulativa, ensaio e montagem intertextual \u2013 que problematiza a puls\u00e3o colecionista e o gesto arquiv\u00edstico enquanto pr\u00e1ticas simultaneamente reparadoras e violentas. A partir da figura de J., confrontado com a triagem urgente de um esp\u00f3lio familiar amea\u00e7ado pela destrui\u00e7\u00e3o, o texto formula o conceito de arquivo liminar como dispositivo \u00edntimo e transicional: um conjunto de objetos e documentos que funcionam como bilhetes de acesso a \u201cintra-entre-lugares\u201d mn\u00e9sicos, onde o presente \u00e9 assombrado por reentradas do passado. A emerg\u00eancia de Dr. Lib \u2013 arconte e inst\u00e2ncia hermen\u00eautica \u2013 permite dramatizar, em chave aleg\u00f3rica, as aporias do arquivo: a sua depend\u00eancia de poder, sele\u00e7\u00e3o, recalque e apagamento, bem como o retorno espectral do que se pretendeu soterrar. No horizonte, a hip\u00f3tese do <em>Das Allumfassende Archiv<\/em> (o \u201cArquivo de Tudo\u201d) opera como limite ut\u00f3pico e inquietante, expondo a tens\u00e3o entre o desejo de totalidade e a impossibilidade foucaultiana de descrever exaustivamente o arquivo. Em paralelo, a no\u00e7\u00e3o de Ab-humanidade radicaliza a problem\u00e1tica ao imaginar uma extin\u00e7\u00e3o humana acompanhada do apagamento dos pr\u00f3prios res\u00edduos arquivais. O texto prop\u00f5e, assim, uma contribui\u00e7\u00e3o para a investiga\u00e7\u00e3o art\u00edstica sobre arquivo, mem\u00f3ria e espectralidade, defendendo a fic\u00e7\u00e3o como m\u00e9todo cr\u00edtico capaz de tornar sens\u00edvel a dimens\u00e3o afetiva, pol\u00edtica e an\u00e1rquica do arquivar.<\/strong><br \/>*<strong>Adaptado da seguinte tese de investiga\u00e7\u00e3o em arte: Rocha, Jer\u00f3nimo (2025), <em><a href=\"https:\/\/repositorio-aberto.up.pt\/handle\/10216\/169342\">O Arquivo Liminar; ou O Espectro no (an)Arquivo do Colecionador<\/a><\/em>, Tese de Doutoramento em Artes Pl\u00e1sticas, Porto, Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto.<\/strong><\/p>\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Introdu\u00e7\u00e3o. De Tempo Contado.<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J. tinha o tempo contado. A um canto, um conjunto de embrulhos de papel\u00e3o atados por cord\u00e9is devolviam-lhe a mirada. Na etiqueta que identificava um deles, estava escrito, numa impec\u00e1vel caligrafia: \u201cD\u00ba do gov\u00ba \u2013 1931 \u2013 3\u00ba trim\u201d (Di\u00e1rio do governo, 1931, terceiro trimestre). \u00c0s cinco da tarde chegava o t\u00e1xi, o que lhe dava algumas horas para selecionar quais os livros que iam para as poucas caixas de cart\u00e3o que caberiam no porta bagagens e quais as que acabariam numa fogueira, juntamente com os m\u00f3veis apodrecidos pelo tempo. Enquanto a sua m\u00e3e e a Z\u00e9lia se desfaziam ruidosamente do mobili\u00e1rio, era a sua prerrogativa triar algumas dezenas de volumes, por entre uma parede que arquivava colunas de b\u00edblias, romances, livros de propaganda pol\u00edtica, revistas, di\u00e1rios ou notas, entre tantos outros c\u00f3dices que a\u00ed habitavam desde as primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX. Uma categoriza\u00e7\u00e3o feita ao longo de pelo menos tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es iria encontrar um violento e abrupto fim dentro de algumas horas. Lembrou-se de William de Baskerville, o monge investigador <em>\u00e0 la <\/em>Sherlock Holmes que chorando, tentava desesperadamente apagar o fogo que iria eventualmente consumir a biblioteca-d\u00e9dalo da Abadia beneditina em <em>O Nome da Rosa<\/em> (1980). \u201c\u2013 \u00c9 imposs\u00edvel, jamais conseguiremos, nem sequer com todos os monges da abadia. A biblioteca est\u00e1 perdida.\u201d (Eco, 1984, p. 355)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o sabia se o que se lembrava daquela casa \u2013 perdida por Rebordelo, a quinze quil\u00f3metros de Amarante \u2013 era uma mem\u00f3ria verdadeira, ou uma constru\u00e7\u00e3o implantada por um punhado de fotografias da sua inf\u00e2ncia que j\u00e1 vira tantas vezes ao longo da sua vida. Sentia-se como Rachael, a <em>replicant<\/em> de <em>Blade Runner<\/em> (1982), quando descreve a Deckard as mem\u00f3rias implantadas da sobrinha de Tyrell como suas (Scott, 1982, 00:33:15). E quando Deckard observa uma das fotos da \u201cinf\u00e2ncia\u201d de Rachael \u2013 sentada num alpendre com a sua m\u00e3e \u2013 Ridley Scott filma-a de tal modo que por um momento, s\u00f3 por um momento, parece-nos ver mexerem-se ao ralenti as sombras das arvores na luz dourada de uma tarde do passado; sem que seja totalmente claro (sem um segundo visionamento frame a frame) se \u00e9 a foto que se reproduz como se num tablet, ou se s\u00e3o s\u00f3 as sombras provocadas pela agita\u00e7\u00e3o da dist\u00f3pica retro futurista L. A. a pregar-nos uma partida \u00e0 nossa perce\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m assim percecionava J. as reprodu\u00e7\u00f5es fotogr\u00e1ficas. Numa delas est\u00e1 ao colo da sua av\u00f3, sentados num escano, junto de uma lareira de ch\u00e3o. \u00c0 sua volta, meia d\u00fazia de potes de ferro pretos. Noutra est\u00e3o o seu pai e o av\u00f4 materno junto a uma mesa, na mesma cozinha, mas noutro canto. Preparam-se para tomar caf\u00e9. Ou assim o imaginava, por causa da cafeteira pousada na velha mesa. Reconhecia que \u201cum acontecimento vivido \u00e9 finito, ou pelo menos encerrado na esfera do vivido, ao passo que o acontecimento lembrado \u00e9 sem limites, porque \u00e9 apenas uma chave para tudo que veio antes e depois.\u201d (Benjamin, 1994, p. 15). A disson\u00e2ncia entre o reconhecimento destas pessoas e a estranheza inquietante de que estes acontecimentos n\u00e3o pareciam pertencer-lhe, faziam variar a sua asser\u00e7\u00e3o de que ele esteve l\u00e1, para uma perturbadora quest\u00e3o do foro da perce\u00e7\u00e3o (na esteira de Merleau-Ponty): estivera ele l\u00e1? (Umbelino, 2019, pp. 35-36) Numa prateleira, um conjunto de livros j\u00e1 sem capa tombavam uns sobre os outros. Via-lhes as costuras nuas, cobertas agora por uma camada de p\u00f3 e por pequenos montes de caruncho que se acumulavam aleatoriamente, formando uma esp\u00e9cie de acne livresco. Numa lombada ainda preservada lia-se, numa ir\u00f3nica observa\u00e7\u00e3o: \u201cReflex\u00f5es Religiosas\u201d. Era definitivo, era ele o arconte daquele arquivo. E sobre ele se abateu um s\u00fabito temor existencial, no ditar de uma decis\u00e3o impratic\u00e1vel. Para o arquivo. Ou. Para o enterramento. Uma escolha imposs\u00edvel para um autoproclamado obsessivo \u201ccompletista\u201d. Walter Benjamin dissera que o colecionador \u00e9 avaro, possessivo e atormentado por um senso de proximidade do fim (Benjamin, 2019, pp. 322), e agora J. compreendia as suas palavas nas notas d\u2019<em>As Passagens de Paris<\/em>. Via, diante de si, um esp\u00f3lio que se desmembrava. E evocava, diante de si, um futuro no qual ele pr\u00f3prio j\u00e1 n\u00e3o existia, e sobre o qual a mesma escolha se abateria sobre outros, acerca da sua cole\u00e7\u00e3o, num t\u00e9trico mise en abyme. Tinha o tempo contado.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">1. Coisas.<\/h2>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu confio nas coisas. As coisas foram feitas para durar. De lugar em lugar. De gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o. \u00c9 por isso que eu tiro coisas para as guardar. (&#8230;) Porque quando as pessoas que amamos se v\u00e3o e as mem\u00f3rias somem, o que mais as mant\u00e9m vivas? (Philippe, Schnesel &amp; Dabis, 2023, 00:01:54)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J. tinha prazer em coligir coisas. T\u00e1cteis, s\u00f3lidas, patentes. Durante toda a sua inf\u00e2ncia fora incutido a guardar ora as caixas dos seus brinquedos, ora os folhetos de instru\u00e7\u00f5es para as montagens dos mesmos. Colecionava pequenos carros met\u00e1licos \u00e0 escala 1\/64 que pousava criteriosamente, recriando longas filas de tr\u00e2nsito que se desenhavam pelos arabescos das carpetes. No fim do dia colocava-os na vitrine do seu quarto, posicionando-os lado a lado, como que numa gigantesca exposi\u00e7\u00e3o autom\u00f3vel. J. acreditava que o verdadeiro colecionador devia sentir uma atra\u00e7\u00e3o instintiva, delineada pelo prazer de adicionar e agrupar em taxonomias \u2013 reais ou inventadas (Benjamin, 2019, p. 326) \u2013 um sem fim de poss\u00edveis m\u00e9diuns e temas; e que o \u201cobjeto [colecionado] seja libertado de todas as suas fun\u00e7\u00f5es originais, para entrar numa rela\u00e7\u00e3o o mais estreita poss\u00edvel com os que lhe s\u00e3o semelhantes\u201d (Benjamin, 2019, p. 319).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0 medida que crescia, as cole\u00e7\u00f5es de J. seguiam-se. Dos carrinhos \u00e0s colet\u00e2neas de cromos autocolantes. Mas n\u00e3o eram s\u00f3 as cadernetas que se ajuntavam nas prateleiras, eram tamb\u00e9m as saquetas rasgadas dos cromos e, em alguns casos, os sup\u00e9rfluos versos dos mesmos. Depois somaram-se os canhotos de ingresso das sess\u00f5es de cinema e outros eventos. J. n\u00e3o tardou a colecionar faturas e recibos das mais variadas compras \u2013 o arranjo de uma torneira, uma refei\u00e7\u00e3o, uma viagem de t\u00e1xi \u2013 mistificado n\u00e3o s\u00f3 pelo aspeto gr\u00e1fico do documento, que muitas vezes o fazia imaginar o adere\u00e7o de um conto burocr\u00e1tico-labir\u00edntico-infernal de Kafka; mas principalmente pelo significado do mesmo: uma prova que J. vivera aquele momento. Agrupava tudo aquilo como as <em>Time Capsules<\/em> (1974-1987) de Andy Warhol, empilhando-as sincronicamente pelas suas poss\u00edveis categorias dentro de caixas de papel\u00e3o ou pl\u00e1stico, por sua vez empilhadas umas nas outras de forma cronol\u00f3gica. E quando o acumular desta papelada se tornava, a seu ver&#8230; acumulador e doentio, J. sofria horrores a determinar qual das provas salvaria. Partilhava a dor do tio Misha em <em>O homem que n\u00e3o deitava nada fora<\/em> (1977) de Ilya Kabakov:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Privarmo-nos de tudo isto significa largarmos aquilo que fomos no passado e, de certo modo, significa deixar de existir. (&#8230;) Porque \u00e9 que o senso comum deve ser mais forte que as minhas mem\u00f3rias, mais forte que todos os momentos da minha vida que est\u00e3o agarrados a estes peda\u00e7os de papel que agora parecem c\u00f3micos e in\u00fateis? (Kabakov, 2006, p. 33)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aqueles documentos, assim como todas as coisas que colecionava, eram como bilhetes peculiares que lhe permitiam o ingresso num espa\u00e7o-tempo s\u00f3 seu, entre o aqui e agora, e a sua perce\u00e7\u00e3o do que fora. Traziam consigo as caracter\u00edsticas da mem\u00f3ria involunt\u00e1ria puxada pela pot\u00eancia da madalena embebida no ch\u00e1 de Proust<sup>1<\/sup> (Proust, 2023, p.59). A viagem era t\u00e3o avassaladora quanto ins\u00f3lita:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">[&#8230;] como se o tempo presente do adulto que sei ser fosse colonizado inesperadamente pelo fantasma de mim pr\u00f3prio enquanto a crian\u00e7a que fui em determinados lugares; tudo se passa como se eu pr\u00f3prio fosse agora tomado pela presen\u00e7a atmosf\u00e9rica, no presente, de mim pr\u00f3prio no passado (&#8230;) \u00e9 como se o corpo e os espa\u00e7os \u201cde hoje\u201d fossem inundados pelo corpo e espa\u00e7os \u201cde ontem\u201d, criando um h\u00edbrido de espa\u00e7o-tempo pelo qual me torno, ao mesmo tempo, o adulto de hoje e a crian\u00e7a de ontem: \u201cao mesmo tempo\u201d porque no mesmo espa\u00e7o. (Umbelino, 2019, pp. 29-30)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estes espa\u00e7os mn\u00e9sicos, transicionais, de apar\u00eancia vagamente desconectada da realidade \u2013 mas t\u00e3o ou mais crus que esta \u2013 fermentavam a sua cole\u00e7\u00e3o em constante expans\u00e3o e pesavam sobre si, exercendo uma enorme carga existencial, como espectros que assombram o arquivo de um colecionador obsessivo, acumulador e atormentado pela eventual ou inevit\u00e1vel destrui\u00e7\u00e3o do seu esp\u00f3lio. E, pela sua morte ou pela destrui\u00e7\u00e3o do seu esp\u00f3lio, ele sabia que tudo o que colecionara at\u00e9 ent\u00e3o \u2013 e a partir da\u00ed \u2013 seria, mais cedo ou mais tarde, transicional. J. refletia vezes sem conta sobre a pot\u00eancia desse acervo, que eventualmente designou como <em>arquivo liminar<\/em>, por sentir nela uma afinidade aos lugares hom\u00f3nimos \u2013 os espa\u00e7os liminares \u2013 velados de uma atmosfera de abandono, de apar\u00eancia negligenciada e tamb\u00e9m vagamente desconectada da realidade, como uma \u00e1rea de espera entre um aqui e agora e um porvir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se os <em>n\u00e3o-lugares<\/em> eram o que Marc Aug\u00e9 denominava no seu livro hom\u00f3nimo de 1995 como as \u201czonas gen\u00e9ricas de tr\u00e2nsito (retail parks, aeroportos) que h\u00e3o de dominar cada vez mais os espa\u00e7os do capitalismo tardio\u201d (Fisher, 2020, p. 31); ent\u00e3o este espa\u00e7o, por oposi\u00e7\u00e3o, espectral, do \u00edntimo, poderia denominar-se <em>intra-entre-lugar<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">2. Dr. Lib.<\/h2>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Benjamin falava ainda, em termos implicitamente aur\u00e1ticos, da \u201cl\u00edngua incompar\u00e1vel da caveira\u201d quando nos aparece, quando nos olha: \u201cEla une a aus\u00eancia total de express\u00e3o (o negro das \u00f3rbitas) \u00e0 express\u00e3o mais selvagem (o esgar da dentadura)\u201d (Didi-Huberman, 2014, p.157)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Voltando para casa do trabalho, como em qualquer outro dia, J. deparou-se com uma encomenda. Ou melhor&#8230; uma encomenda deparou-se com ele. Mesmo no topo das escadas, \u00e0 porta de casa. Um embrulho de papel\u00e3o, amarrado por um cordel. Desnovelou o cordel e puxou o papel, desvendando uma caixa de cart\u00e3o que prontamente abriu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No seu interior, uma camp\u00e2nula de vidro. Uma camp\u00e2nula como qualquer outra. Como tantas que tinha na sua sala. Mas esta era&#8230; diferente. N\u00e3o muito pequena. N\u00e3o muito grande. Mesmo \u00e0 sua medida. O seu interior&#8230; mais&#8230; familiar&#8230; que a sua pr\u00f3pria casa. Sentou-se e ficou a observ\u00e1-la por muito tempo. E depois&#8230; e depois decidiu&#8230; e depois decidiu experiment\u00e1-la. Para ver se lhe servia. E foi ent\u00e3o meteu a sua cabe\u00e7a l\u00e1 dentro.<sup>2<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A princ\u00edpio nada se passou&#8230; mas logo, de s\u00fabito, algo aconteceu. De dentro ecoou uma voz. Falava em alem\u00e3o mas, por algum estranho motivo, J. conseguia compreend\u00ea-la. \u201cBem-vindo a casa, meu bom homem. Estivemos \u00e0 sua espera.\u201d, sussurrou-lhe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J. n\u00e3o se lembra do tempo ter passado, mas em breve sentia que a camp\u00e2nula habitara a sua casa desde sempre. At\u00e9 ao dia em que, ao entrar na sala pela manh\u00e3, viu que na base de madeira lacada da camp\u00e2nula conseguia ler-se uma etiqueta que dizia \u201c<em>ich bin genauso vi du<\/em>\u201d, \u201ceu sou exactamente como tu\u201d. N\u00e3o se lembrava de a ver ou ler antes. Mas isso n\u00e3o era o mais estranho. A camp\u00e2nula estava agora habitada por um estranho <em>totem<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que era aquilo? O cr\u00e2nio de uma criatura, de uma esp\u00e9cie de pequeno s\u00edmio, devolvia-lhe a mirada de dentro da camp\u00e2nula, embora n\u00e3o tivesse olhos, s\u00f3 o breu da concavidade das \u00f3rbitas. Os seus dentes eram profundamente animalescos e ferozes, mas pareciam soltar um sorriso de concavidade a concavidade, num esgar enigm\u00e1tico, esf\u00edngico. Tudo aquilo se envolvia de uma atmosfera proto museol\u00f3gica, de gabinete de curiosidades, de <em>Wunderkammer<\/em>, de sala das maravilhas; contendo tudo o que \u00e9 profundamente, grotescamente traum\u00e1tico e que foi capturado no que est\u00e1 por detr\u00e1s, escondido, \u00e0 espera de voltar, e que voltou e agora se exibe. Uma c\u00e1psula das maravilhas horr\u00edveis, de sublime atra\u00e7\u00e3o-repulsa. Uma camp\u00e2nula que encapsulava um monstro hom\u00e9rico, que escondia um princ\u00edpio de passado, \u201cpuxando-o para o interior, isto \u00e9, para o secreto, para o Mist\u00e9rio (de onde tinha, apesar de tudo, originalmente emergido) (&#8230;) [onde] todas as coisas que s\u00e3o chamadas de estranho-familiar s\u00e3o aquelas que se deveriam ter mantido em segredo, escondidas, latentes, mas que vieram \u00e0 luz\u201d (Schelling cit. por Vidler, 1992, pp. 26-27).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi ent\u00e3o que J. compreendeu a horr\u00edvel sensa\u00e7\u00e3o que sentia. Estava a ser lido. Estava a ser lido com um leitor estuda o texto e as figuras que descrevem o quotidiano das criaturas bidimensionais de <em>Flatland<\/em> (1884) de Edwin Abbott Abbott. Como um ser da en\u00e9sima dimens\u00e3o nos observaria a n\u00f3s. Sentiu aquela mente alien\u00edgena, profana, a expandir-se e influir a sua rede sin\u00e1ptica. Cruzava as suas mem\u00f3rias interiores usando marcos hist\u00f3ricos, exteriores a si, como os ponteiros de uma b\u00fassola. E ent\u00e3o a voz interior projetou-se mais uma vez: \u201c<em>Mein Name ist Doktor Lib<\/em>\u201d, \u201cO meu nome \u00e9 Dr. Lib.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Devo estar a alucinar-vos, Doutor. \u2013 cortou J. Dr. Lib pausou por um momento, numa express\u00e3o que telegrafava algo como: \u201cj\u00e1 o esperava\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 N\u00e3o podeis ser real. \u2013 continuou J., \u2013 Devo estar a imaginar-vos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 \u201c[\u00c9] privil\u00e9gio dos romancistas criar personagens que matam as personagens dos historiadores. A raz\u00e3o \u00e9 que os historiadores evocam meros fantasmas, ao passo que os romancistas criam gente de carne e osso.\u201d (Dumas cit. por Eco, 2024, p. 63) N\u00e3o pense nem por um segundo, <em>mein leiber freund<\/em> que, s\u00f3 por ser meramente ficcionado, sou de todo menos relevante. Estivemos \u00e0 sua espera para que, no momento certo, pud\u00e9ssemos intervir. Isto \u00e9, quando estivesse preparado para nos receber. Que \u00e9 agora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J. solta uma gargalhada nervosa, olhando \u00e0 volta pela sala, enquanto abana a cabe\u00e7a \u2013 Quem sois v\u00f3s? Verdadeiramente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Sabeis o que \u00e9 um <em>arconte<\/em>?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J. pensou por momentos e depois atirou, a medo \u2013 Um magistrado? Algu\u00e9m que guarda documentos oficiais?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Correto.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">[Os arcontes] n\u00e3o eram respons\u00e1veis apenas pela seguran\u00e7a f\u00edsica do dep\u00f3sito e do suporte. Cabiam-lhes tamb\u00e9m o direito e a compet\u00eancia hermen\u00eauticos. Tinham o poder de interpretar os arquivos. Depositados sob a guarda desses arcontes, estes documentos diziam, de fato, a lei: eles evocavam a lei e convocavam \u00e0 lei. Para serem assim guardados, na jurisdi\u00e7\u00e3o desse dizer a lei eram necess\u00e1rios ao mesmo tempo um guardi\u00e3o e uma localiza\u00e7\u00e3o. Mesmo em sua guarda ou em sua tradi\u00e7\u00e3o hermen\u00eautica, os arquivos n\u00e3o podiam prescindir de suporte nem de resid\u00eancia. (Derrida, 2001, pp. 12-13)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Somos guardi\u00f5es da vossa hist\u00f3ria, <em>arcontes<\/em> do vosso dep\u00f3sito e suporte. Come\u00e7amos na constru\u00e7\u00e3o do vosso universo f\u00edsico, assim como o conhecem. <em>Agora<\/em>, se \u00e9 que esta palavra se pode aplicar neste vosso conceito de tempo, viajamos pela vossa hist\u00f3ria, mas estamos para al\u00e9m desta, mexendo-nos por entre as cicatrizes que a descosem, deslizando pelos seus tra\u00e7os de recalque e repress\u00e3o, saltando pela vossa constante puls\u00e3o pela repeti\u00e7\u00e3o. Isto para que possamos fazer a curadoria deste vosso arquivo que fostes v\u00f3s, fazendo casa no&#8230; fazendo casa no <em>Allum<\/em>&#8230; enfim, uma coisa de cada vez.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"688\" src=\"https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/AL_carro.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1345\" srcset=\"https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/AL_carro.jpg 1024w, https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/AL_carro-300x202.jpg 300w, https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/AL_carro-768x516.jpg 768w, https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/AL_carro-18x12.jpg 18w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">3. Das Allumfassende Arquiv.<\/h2>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Biblioteca existe <em>ab aeterno<\/em>. Dessa verdade cujo corol\u00e1rio imediato \u00e9 a eternidade futura do mundo, nenhuma mente razo\u00e1vel pode duvidar. (Borges, 2020)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J. falou prolongadamente sobre a montagem do seu arquivo liminar, dos seus documentos que lhe permitiam o acesso \u00edntimo aos seus <em>intra-entre-lugares<\/em>, al\u00e9m das suas ansiedades avaras de colecionador. J. tentou explicar de onde vinha aquela puls\u00e3o: \u201c\u00c9 como um&#8230;\u201d, mas Dr. Lib completou a frase por ele, como se, de imediato, o conhecesse intimamente:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">[\u00c9 como um] arder de paix\u00e3o. \u00c9 n\u00e3o ter sossego, \u00e9 incessante, interminavelmente procurar o arquivo onde ele se esconde. \u00c9 correr atr\u00e1s dele ali onde, mesmo se h\u00e1 bastante, alguma coisa nele se anarquiza. \u00c9 dirigir-se a ele com um desejo compulsivo, repetitivo e nost\u00e1lgico, um desejo irreprim\u00edvel de retorno \u00e0 origem, uma dor da p\u00e1tria, uma saudade de casa, uma nostalgia do retorno ao lugar mais arcaico do come\u00e7o absoluto. (Derrida, 2001, p. 118)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 \u00c9 isso. \u00c9 o que d\u00e1 o sentido \u00e0s coisas que colecto. \u00c9 o que <em>me<\/em> d\u00e1 sentido. \u2013 expirou J.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dr. Lib acertara em cheio, mas tal n\u00e3o fazia J. sentir-se de todo melhor. Lib, percebendo a sua neura, continuou:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Devo avis\u00e1-lo, no entanto, que \u201cesta necessidade de impor ou descobrir sentido no mundo pode levar \u00e0 obsess\u00e3o, fazendo com que o obcecado acredite que a fixa\u00e7\u00e3o no assunto revelar\u00e1 o sentido. [Assim], abandonar a obsess\u00e3o \u00e9 aceitar a presen\u00e7a da falta de sentido no mundo.\u201d (Miley, 2010)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 E o que ganharia eu, <em>Herr Doktor<\/em>, aceitando que o mundo n\u00e3o tem sentido? E, se sim, n\u00e3o \u00e9 prefer\u00edvel faz\u00ea-lo ter? Pela minha pr\u00e1tica?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Claro que sim! Apenas apelo que reconhe\u00e7a os riscos que incorre. Repare bem:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 por isso que a arte arquival pode parecer tendenciosa, il\u00f3gica at\u00e9. Na realidade, a sua vontade de ligar pode denunciar um laivo de paranoia, pois o que \u00e9 a paranoia sen\u00e3o um exerc\u00edcio de liga\u00e7\u00f5es for\u00e7adas, do [seu] pr\u00f3prio arquivo privado, dos [seus] pr\u00f3prios cadernos do subterr\u00e2neo, postas \u00e0 mostra? (&#8230;) Para Freud, o paranoico projeta os seus significados no mundo justamente porque este parece sinistramente esvaziado de todo o sentido.<br>(Foster, 2021, p. 101)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pequena caveira \u201colhou\u201d J. nos olhos e, no seu perene esgar, atirou-lhe o seguinte:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 E se eu lhe dissesse, meu bom homem, que a humanidade j\u00e1 n\u00e3o existe. Ali\u00e1s, que se extinguiu faz j\u00e1 muito, muito tempo. Seja porque o Sol engoliu o seu sistema planet\u00e1rio, ou at\u00e9 mesmo pois, na corrida desenfreada do progresso, a Humanidade foi naturalmente v\u00edtima do que tende a acontecer sempre que se sobe um degrau na escala de Kardashev<sup>3<\/sup>, validando assim o paradoxo de Fermi<sup>4<\/sup>. E que todos aqueles preciosos itens \u2013 os documentos, a parafern\u00e1lia, os artefactos, os diagramas, as exposi\u00e7\u00f5es \u2013 que tanto lhe aprazem e apaziguam o seu v\u00edcio avaro se perderam, se incineraram, se desintegraram, se dissolveram, se desfizeram, se eclipsaram. Enfim, acabaram. E que o cosmos fez quest\u00e3o de eliminar mesmo as sondas mais insistentes e aventureiras, ora com chuvas de meteoritos, ora com supernovas. Voc\u00eas falam de p\u00f3s-humanidade<sup>5<\/sup> quando deviam, de facto, falar de <em>Ab-humanidade<\/em>; a partir do prefixo latino <em>ab<\/em>-, de afastamento, aus\u00eancia, prova\u00e7\u00e3o. Um conceito bem mais radical, eu sei, pois implica uma Era ou condi\u00e7\u00e3o na qual v\u00f3s \u2013 humanos \u2013 n\u00e3o s\u00f3 j\u00e1 n\u00e3o existem, como todas as vossas secre\u00e7\u00f5es arquivais, res\u00edduos civilizacionais ou culturais foram j\u00e1 eliminados da exist\u00eancia pelo acaso e caos c\u00f3smico. Uma condi\u00e7\u00e3o que para v\u00f3s, se poder\u00e1 apresentar como profundamente apor\u00e9tica, como a morte, pois nela n\u00e3o est\u00e3o implicados, e por conseguinte n\u00e3o \u00e9 de todo observ\u00e1vel (Han, 2021, pp. 12-13).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J. senta-se no sof\u00e1, expirando com desconsolo. \u201cQue pensamento desolador.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o pequeno cr\u00e2nio continuou como se nada fosse: \u2013 Desolador sim, mas nada que j\u00e1 n\u00e3o lhe tivesse passado pela cabe\u00e7a. Muitas vezes, ali\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J. voltou-se para Dr. Lib, que continuou: \u2013 N\u00e3o o negue, <em>mein lieber freund<\/em>, eu sei. Eu bem sei. Eu reconheceria essa \u00e2nsia do seu olhar em qualquer lado. Esse temor existencial. \u00c9 justificado. N\u00e3o h\u00e1 fuga poss\u00edvel. Nem h\u00e1 ferramentas nas vossas mentes de s\u00edmio que o compreendam em absoluto: a inevit\u00e1vel e irrevog\u00e1vel n\u00e3o-exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Mentes de s\u00edmio? \u2013, interrompeu J.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dr. Lib pausa por momentos e logo regressa, em tom provocat\u00f3rio, \u2013 N\u00e3o pense que escolh(i\/eu) esta minha forma por acaso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Gera-se um sil\u00eancio desconfort\u00e1vel na sala. Por fim, J. fita Lib, confrontando-o: \u2013 Diga-me, <em>Herr Doktor<\/em>, se tudo est\u00e1 perdido, se nada vale a pena, e se o sabe, como aparenta saber, ent\u00e3o porque raz\u00e3o veio at\u00e9 mim? Para me humilhar?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O doutor responde de imediato: \u2013 Para lhe propor uma viagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J. ergue-se do sof\u00e1 e aproxima-se novamente da camp\u00e2nula, repetindo lentamente as \u00faltimas palavras de Lib, agora em forma de pergunta, \u2013 Uma viagem?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Sim, uma viagem. Uma viagem que s\u00f3 algu\u00e9m como v\u00f3s poderia empreender. Algu\u00e9m com o vosso&#8230; <em>ethos<\/em>. Diga-me, meu bom homem, o que \u00e9 que algu\u00e9m como v\u00f3s faria, se tivesse acesso privilegiado ao&#8230; <em>Arquivo de Tudo<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Ao arquivo de qu\u00ea?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 De tudo, <em>mein freund<\/em>. Ao arquivo de tudo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A \u00faltima frase ressoou na cabe\u00e7a de J. como um disparo de canh\u00e3o. O arquivo de tudo. Era um conceito deveras apetec\u00edvel, mas assombrosamente radical e logo se lembrou do que dissera Foucault acerca do assunto, na sua <em>Arqueologia do Saber<\/em> (1969).<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 evidente que n\u00e3o se pode descrever exaustivamente o arquivo de uma sociedade, de uma cultura ou de uma civiliza\u00e7\u00e3o; nem mesmo, sem d\u00favida, o arquivo de toda uma \u00e9poca. Por outro lado, n\u00e3o nos \u00e9 poss\u00edvel descrever nosso pr\u00f3prio arquivo, j\u00e1 que \u00e9 no interior de suas regras que falamos, j\u00e1 que \u00e9 ele que d\u00e1 ao que podemos dizer \u2013 e a ele pr\u00f3prio, objeto de nosso discurso \u2013 seus modos de aparecimento, suas formas de exist\u00eancia e de coexist\u00eancia, seu sistema de ac\u00famulo, de historicidade e de desaparecimento. O arquivo n\u00e3o \u00e9 descrit\u00edvel em sua totalidade; e \u00e9 incontorn\u00e1vel em sua atualidade. (Foucault, 2008, p. 148)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Teria de ser um s\u00edtio t\u00e3o radical e t\u00e9trico quanto o seu radical e t\u00e9trico arauto, Dr. Lib, que prontamente continuou o seu discurso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 O que lhe falo \u00e9 de um espa\u00e7o que encerra o acervo do que a humanidade fez, viveu, descobriu, sonhou. E far\u00e1, viver\u00e1, descobrir\u00e1 e sonhar\u00e1 at\u00e9 se extinguir. Um <em>topos hyperuranios<\/em>, por assim dizer. Para os humanos, plat\u00f3nico, onde todas as ideias das coisas reais se encontram em permanente cole\u00e7\u00e3o; mas para n\u00f3s, acess\u00edvel na sua totalidade. (Plat\u00e3o, 2020, pp. 62-63) Uma totalidade onde poder\u00e1 \u201ctransformar a extemporaneidade em justeza\u201d, os \u201clocais de escava\u00e7\u00e3o\u201d em \u201clocais de constru\u00e7\u00e3o\u201d (Foster, 2021, p. 102), pois n\u00e3o h\u00e1 porque penar para recolher os seus objetos, bilhetes de <em>intra-entre-lugar<\/em> ou momentos de <em>kair\u00f3s<\/em> <em>f\u00edlmico<\/em>, quando tudo est\u00e1 l\u00e1 para ser fru\u00eddo \u00e0 sua escolha. Fora dos constrangimentos do tempo. Com a cole\u00e7\u00e3o do mundo ao seu dispor. N\u00e3o poder\u00e1 ter uma melhor forma de colecionar, a mais eficaz entre todas as manifesta\u00e7\u00f5es profanas de \u201cproximidade\u201d, melhor ainda que a recorda\u00e7\u00e3o. (Benjamin, 2019, p. 319) Chamamos-lhe <em>Das Allumfassende Archiv<\/em>: <em>O Arquivo de Tudo<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s uma pausa dram\u00e1tica, deixando J. devoto aos seus pensamentos, Dr. Lib continuou: \u2013 Mas uma coisa \u00e9 saber que um s\u00edtio existe e outra, completamente diferente, \u00e9 saber&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Como l\u00e1 chegar. \u2013 arriscou completar J., voltando o olhar \u00e0 caveira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Exatamente, meu bom homem. E acredite quando lhe digo que a cartografia deste <em>topos<\/em> \u00e9 t\u00e3o peculiar quanto a singularidade dele pr\u00f3prio. \u00c9, ali\u00e1s, um <em>utopos<\/em>. Mas n\u00e3o, de todo, inacess\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Como? \u2013 preguntou J. com os olhos arregalados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No seu esgar perene, a pequena caveira respondeu dentro da sua mente: \u2013 Este <em>utopos<\/em> \u00e9 insular. Situa-se numa ilha para l\u00e1 do oceano da tristeza. Uma viagem implica pagar o seu pre\u00e7o em sangue. Em dor.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A mente \u00e9 dor. S\u00f3 atrav\u00e9s da dor ela alcan\u00e7a novo conhecimento, uma forma mais elevada de saber e de consci\u00eancia. (&#8230;) No seu processo de [trans]forma\u00e7\u00e3o, a mente entra em contradi\u00e7\u00e3o consigo mesma. Ela divide-se. Essa divis\u00e3o, essa contradi\u00e7\u00e3o, magoa-a. Mas a dor faz com que a mente se forme [para a viagem]. A forma\u00e7\u00e3o pressup\u00f5e a negatividade da dor. Ao desenvolver-se para assumir uma forma mais elevada, a mente supera a contradi\u00e7\u00e3o dolorosa. (Han, 2020, p. 51)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9, portanto, uma viagem dolorosa, da mente, <em>de<\/em>mente. O vosso corpo ir\u00e1 transformar-se no processo. Assim como est\u00e1 agora, n\u00e3o est\u00e1 preparado para tal jornada. Ter\u00e1 de se preparar. Mas n\u00e3o se inquiete. Eu mesmo o ensinarei. Aos meus cuidados, conseguir\u00e1 chegar l\u00e1. Mas lembrai-vos bem, eu apenas vos ofere\u00e7o um caminho para que vejais o que vos atormenta. N\u00e3o vos ofere\u00e7o a salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J. Pega na camp\u00e2nula com cuidado e leva-a gentilmente at\u00e9 \u00e0 sua mesa de caf\u00e9. Depois senta-se novamente esfregando nervosamente as m\u00e3os nas cal\u00e7as e inspira fundo, olhos postos no doutor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Antes de mais, deve pensar o imposs\u00edvel como proposta de uma possibilidade. Veja, por exemplo, o livro infinito de Jorge Lu\u00eds Borges, o <em>Livro de Areia<\/em> (1975) \u201c\u2013 N\u00e3o pode ser, mas \u00e9. O n\u00famero de p\u00e1ginas deste livro \u00e9 exatamente infinito. Nenhuma \u00e9 a primeira; nenhuma, a \u00faltima. N\u00e3o sei por que s\u00e3o numeradas desse modo arbitr\u00e1rio. Talvez para dar a entender que os termos de uma s\u00e9rie infinita admitem qualquer n\u00famero. Depois, como se pensasse em voz alta: \u2013 Se o espa\u00e7o for infinito, estamos em qualquer ponto do espa\u00e7o. Se o tempo for infinito, estamos em qualquer ponto do tempo.\u201d (Borges, 2012, p. 124) Ou o seu <em>Aleph<\/em>, o artefacto que lhe permite acesso a todos os pontos no espa\u00e7o. \u201cO di\u00e2metro do Aleph seria de dois ou tr\u00eas cent\u00edmetros, mas estava ali o espa\u00e7o c\u00f3smico, sem diminui\u00e7\u00e3o de tamanho. Cada coisa (a lua do espelho, digamos) era infinitas coisas, porque eu a via claramente de todos os pontos do universo.\u201d (Borges, 2013, p. 169) Veja, por fim a sua <em>Biblioteca de Babel<\/em> (1944). \u201cDo ponto de vista tect\u00f3nico a biblioteca \u00e9 um edif\u00edcio \u2018infinito\u2019, (&#8230;) [que] conteria todos os livros escritos e os inumer\u00e1veis outros que ainda n\u00e3o foram escritos, mas j\u00e1 est\u00e3o realizados virtualmente. Seriam pens\u00e1veis milh\u00f5es de vers\u00f5es da Divina Com\u00e9dia, com diferen\u00e7as m\u00ednimas, constituindo cada uma delas um novo livro.\u201d (Miranda, 2017, p. 50)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Como \u00e9 sequer poss\u00edvel compreender tal espa\u00e7o? Como \u00e9 que as nossas&#8230; \u201cferramentas de s\u00edmio\u201d, tal como p\u00f4s h\u00e1 pouco, s\u00e3o capazes de processar tal informa\u00e7\u00e3o ou guiar-se por ela? \u2013 retorquiu J.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 No final, quando estiver bem treinado, ver\u00e1 o espa\u00e7o como me v\u00ea a mim, meu caro, neste preciso momento. Como espreitando por uma camp\u00e2nula. Como se v\u00f3s fosseis um deus, ou o universo em si, ou aquilo al\u00e9m da realidade que \u00e9 capaz de compreender, que o observasse a si mesmo, J., neste momento, pequenino, como um dos seus carrinhos \u00e0 escala 1\/64, dentro de uma camp\u00e2nula.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J. recostou-se no seu sof\u00e1, massajando as t\u00eamporas. Pensou \u201ccomo o olhar imposs\u00edvel, desde o alto, para o qual os [Nazca] desenharam no solo figuras gigantescas de p\u00e1ssaros e animais, ou o olhar imposs\u00edvel para o qual foram moldados os pormenores das esculturas do velho aqueduto de Roma, embora n\u00e3o pudessem ser observadas do solo. Em suma, (&#8230;) a ideia de que \u2018algu\u00e9m est\u00e1 olhando para n\u00f3s\u2019; n\u00e3o \u00e9 um sonho, mas a no\u00e7\u00e3o de que \u2018somos os objetos do sonho de outro\u2019\u201d (\u017di\u017eek, 2013, p. 88). Um verdadeiro <em>olhar<\/em><sup>6<\/sup>.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">4. De Monstros e Ru\u00ednas.<\/h2>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso leva \u00e0 \u00faltima pergunta: existe uma possibilidade de conduzir o desenvolvimento ps\u00edquico dos seres humanos de modo que se tornem capazes de resistir \u00e0s psicoses de \u00f3dio e \u00e0 aniquila\u00e7\u00e3o?<br>Carta de Albert Einstein a Sigmund Freud,<br>30 de julho de 1932<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Muito podemos fazer por si, meu caro. \u2013 trauteou Dr. Lib no seu perene esgar. \u2013 Vejo que possui as ferramentas b\u00e1sicas para que possamos passar ao n\u00edvel seguinte, mas para tal, teremos de <em>dar \u00e0 sola<\/em>. \u00c9 de extrema import\u00e2ncia que, para alcan\u00e7ar o seu destino \u00faltimo no <em>utopos<\/em> <em>Das Allumfassende Archiv<\/em>, ademais de se poder passear por este, aprenda a dobrar a sua mente pelo tempo e pelo espa\u00e7o. Dada a vossa limita\u00e7\u00e3o fisiol\u00f3gica, deveremos primeiro retroceder, numa esp\u00e9cie de entropia invertida<sup>7<\/sup>, feita mem\u00f3ria, at\u00e9 achar o seu estado org\u00e2nico mais prim\u00e1rio, mais pr\u00f3ximo da vossa origem inorg\u00e2nica; para depois a podermos ultrapassar, saltando para al\u00e9m de si e indiscriminadamente, para a frente e para tr\u00e1s, na hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Desculpe, mas fala em viajar no tempo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Sim e n\u00e3o. O nosso assunto aqui n\u00e3o \u00e9 o de mudar o que passou, mas sim o de viajar pelo pulsar repetitivo da vossa hist\u00f3ria que, tal como v\u00f3s, meu bom homem, tamb\u00e9m se comporta como uma colecionadora obsessiva: acumuladora, (an)arquivista<sup>8<\/sup> e atormentada pela inevit\u00e1vel destrui\u00e7\u00e3o do seu Arch\u00e9. Sim, \u201cela trabalha para destruir o arquivo: com a condi\u00e7\u00e3o de apagar mas tamb\u00e9m com vistas a apagar seus \u2018pr\u00f3prios\u2019 tra\u00e7os \u2013 que j\u00e1 n\u00e3o podem desde ent\u00e3o serem chamados \u2018pr\u00f3prios\u2019. (&#8230;) a puls\u00e3o de morte \u00e9 acima de tudo, anarqu\u00edvica.\u201d (Derrida, 2001, p. 21) E \u00e9 atrav\u00e9s desses tra\u00e7os, de recalque e repress\u00e3o, que atravessam o arquivo do discurso da hist\u00f3ria enquanto v\u00e9us de espectralidade (Derrida, 2001, p. 23-29) que se aprender\u00e1 a deslocar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 De que tra\u00e7os fala?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D. Lib responde com gosto de orador:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nada seria mais enganoso, at\u00e9 mesmo ilus\u00f3rio e ing\u00e9nuo, do que acreditar que o arquivo seria constitu\u00eddo por uma massa documental fixa e congelada, tendo no registro do passado a sua \u00fanica refer\u00eancia temporal, sem que os registros do presente e do futuro estejam efetivamente operantes no processo de arquivamento. Esse engano e essa ilus\u00e3o querem fazer crer que o arquivo seja constitu\u00eddo por documentos patentes, isto \u00e9, tudo aquilo que de fato ocorreu de importante no passado estaria efetivamente arquivado sem <em>rasuras<\/em> e sem <em>lacunas<\/em>, ou seja, sem que estivesse em pauta qualquer <em>esquecimento<\/em>. (Birman, 2008)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esta \u00e9 a conjuga\u00e7\u00e3o de <em>hist\u00f3ria<\/em>, <em>verdade<\/em> e <em>poder<\/em> que Derrida fez casar, a prop\u00f3sito dos arquivos sobre o mal: \u201cdissimulados ou destru\u00eddos, interditados, desviados, \u2018recalcados\u2019. [O] seu tratamento \u00e9 ao mesmo tempo massivo e refinado ao longo de guerras civis ou internacionais, de manipula\u00e7\u00f5es privadas ou secretas.\u201d (Derrida, 2001, p. 7) Nomeie uma qualquer cultura e eu dir-lhe-ei o quanto foi apagado. Indique-me uma qualquer pessoa e eu contar-lhe-ei o qu\u00e3o foi suprimido. Tomemos o vosso exemplo. Quantas coisas n\u00e3o ter\u00e1 visto e experienciado, para depois ler ou ouvir distorcida ou velada, numa outra circunst\u00e2ncia, por uma outra entidade cuja rela\u00e7\u00e3o de poder o suprime a si e \u00e0 sua <em>verdade<\/em>. E muito pouca ou nenhuma raz\u00e3o de queixa ter\u00e1, meu caro: por vossa tez, g\u00e9nero, localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica, condi\u00e7\u00e3o social e \u00e9poca em que o caos entropicamente o lan\u00e7ou at\u00e9 aqui, desde o seu estado inorg\u00e2nico. E, convenhamos, se voc\u00ea o faz metodologicamente na vossa obra, com a vossa manipula\u00e7\u00e3o de montagem, com a vossa constru\u00e7\u00e3o dieg\u00e9tica, com a vossa fic\u00e7\u00e3o, o que impede a hist\u00f3ria, ou melhor, os seus vencedores, de fazer o mesmo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 O que me diz faz-me lembrar o <em>Anjo da Hist\u00f3ria<\/em>, de Walter Benjamin. \u201cVoltou o rosto para o passado. A cadeia de factos que aparece diante dos nossos olhos \u00e9 para ele uma cat\u00e1strofe sem fim, que incessantemente acumula ru\u00ednas sobre ru\u00ednas e lhas lan\u00e7a aos p\u00e9s. Ele gostaria de parar para acordar os mortos e reconstruir, a partir dos fragmentos, aquilo que foi destru\u00eddo.\u201d (Benjamin, 2017, p. 14) Mas&#8230; n\u00e3o lhe parece perversa tal compara\u00e7\u00e3o \u00e0 minha pr\u00e1tica?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Eu apenas observo, meu caro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J. reagiu de imediato e, como que aferroando, atirou-lhe: \u2013 Se assim o diz. Mas eu prefiro reservar esse posicionamento radical da inf\u00e2mia para o territ\u00f3rio da arte.<sup>9<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A bestialidade daquela caveira proto-humana tornava-se cada vez mais monstruosa aos olhos de J. Agora percebia ou, pelo menos, come\u00e7ava a entender porque o sondou daquela forma t\u00e3o abjeta quando se conheceram; porque cruzou as suas mem\u00f3rias de inf\u00e2ncia no <em>Portugal dos Pequenitos<\/em>, conspurcando-a com outros traumas hist\u00f3ricos de coloniza\u00e7\u00e3o, sem aparente rela\u00e7\u00e3o. Era, provavelmente, a \u00fanica forma que Dr. Lib tinha de o conhecer, navegando-o. \u201cFoi uma horr\u00edvel viola\u00e7\u00e3o da minha intimidade\u201d pensou. \u201cEsta \u00e9 uma oportunidade incr\u00edvel, mas a que pre\u00e7o? Quanta hediondez ficar\u00e1 tingida em mim com este conhecimento?\u201d Lib enquadrava-se na descri\u00e7\u00e3o que Ash \u2013 o androide corporativo de <em>Alien<\/em> (Scott, 1979) \u2013 faz da horrorosa besta espacial, num elogio \u00e0 sua \u201cpureza\u201d: \u201cum sobrevivente, despolu\u00eddo de consci\u00eancia, remorso ou ilus\u00f5es de moralidade\u201d. Desumano, portanto. Havia, no entanto, uma outra possibilidade \u2013 de carga psicanal\u00edtica \u2013 que J. n\u00e3o havia ainda considerado e que agora se semeava dentro de si. A de Lib ser literalmente um monstro da sua <em>Id<\/em>. Dos seus inatos impulsos: feios, lamacentos, reptilianos, proto-humanos. Como o antagonista fant\u00e1stico de <em>Forbidden Planet<\/em> (1956), criatura feita de energia ps\u00edquica materializada, vinda do subconsciente do proverbial Pr\u00f3spero shakespeariano \u2013 o Dr. Edward Moebius \u2013 a partir de uma avan\u00e7ada tecnologia alien\u00edgena. E alien\u00edgena era Dr. Lib, mais n\u00e3o o podia ser. No entanto, a maldade, a indiferen\u00e7a, a cobi\u00e7a, o impulso de morte que este referia, n\u00e3o o eram. Eram humanos. Por fim, e at\u00e9 porque n\u00e3o sabia se Lib perscrutava esses seus pensamentos interiores, J. disfar\u00e7ou, voltando \u00e0 carga: \u2013 Ent\u00e3o o que me diz \u00e9 que viajaremos orientados pela repeti\u00e7\u00e3o do trauma das cat\u00e1strofes da humanidade?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Vejo que n\u00e3o lhe escapa nada. Quantas na\u00e7\u00f5es, credos ou indiv\u00edduos s\u00e3o suprimidos numa primeira inst\u00e2ncia para, mais tarde, se tornarem o opressor e assim renovarem o ciclo traum\u00e1tico. Nem s\u00f3 de Napole\u00f5es se repete a hist\u00f3ria da trag\u00e9dia \u00e0 farsa. E n\u00e3o s\u00f3 por duas vezes<sup>15<\/sup>. S\u00e3o como o reviver da mesma puls\u00e3o, com diferentes velos, enquanto v\u00f3s, s\u00edmios, perdurarem. \u2013 respondeu Dr. Lib, com uma certa condescend\u00eancia. \u2013 Est\u00e1 correto, viajaremos atrav\u00e9s das repeti\u00e7\u00f5es registadas \u00e0 superf\u00edcie hist\u00f3rica, mas usando a energia traum\u00e1tica, espectral, subcut\u00e2nea que resulta desse enterramento. Como se a primeira fosse a tona da \u00e1gua e a segunda, a for\u00e7a oce\u00e2nica que impulsiona as ondas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 A segunda, subaqu\u00e1tica, onde vivem os monstros hom\u00e9ricos. \u2013 retorquiu J. observando, em tom acusat\u00f3rio, a rea\u00e7\u00e3o de Dr. Lib.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 <em>Sehr gut<\/em>, muito bem! Dos mist\u00e9rios schellingianos soterrados (Schelling, 1966, vol.2, p. 649) que a hist\u00f3ria decidiu destruir, oprimir, apagar ou esquecer compulsivamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Cicatrizes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Isso, <em>mein lieber freund<\/em>! Aprender a cruzar tais cicatrizes \u00e9 aprender a navegar pelo <em>Allumfassende Archiv.<\/em><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">5. Uma Heran\u00e7a.<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O aludido passo final \u2013 de sangue \u2013 era mais metaf\u00f3rico que melodram\u00e1tico. Era um legado de fam\u00edlia. Uma das suas tias-av\u00f3s, da parte da sua m\u00e3e, falecera e deixara-lhe uma moradia em Rebordelo. Na verdade, quem verdadeiramente lhe deixara a casa fora a irm\u00e3 mais velha desta, que falecera uns anos antes, mas cujo testamento estava enla\u00e7ado com a primeira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como era apan\u00e1gio do seu car\u00e1cter, J. levou <em>a mal<\/em> a heran\u00e7a: \u201cQue tenho eu a ver com estas pessoas, que pouco ou nada conheci em vida e que agora me p\u00f5em numa situa\u00e7\u00e3o em que devo tomar a\u00e7\u00f5es legais, de uma forma ou de outra\u201d; ou \u201cestava eu a levar pacificamente a minha vida e logo me vejo com obriga\u00e7\u00f5es que, se ignorar, me podem prejudicar violentamente e sem que nada tenha feito para as potenciar.\u201d Uma heran\u00e7a, longe da ideia rom\u00e2ntica que motiva os assassinos nos <em>thrillers noir<\/em>, pode consumir mais riqueza daquele que a herda que, na verdade, conferi-la. O Estado, essa entidade ac\u00e9fala, fica sempre com o seu quinh\u00e3o \u00e0 cabe\u00e7a, que deve ser pago pelo benefici\u00e1rio antes deste sequer <em>ver<\/em> seja o que for. Os bancos, <em>preservando<\/em> os direitos do falecido, imp\u00f5em entraves legal\u00edssimos ao acesso \u00e0s suas contas, que os fazem enriquecer paulatinamente atrav\u00e9s de gastos de manuten\u00e7\u00e3o que se arrastam por meses, anos ou indefinidamente. Havendo terrenos ou im\u00f3veis envolvidos na heran\u00e7a, h\u00e1 que atualizar o propriet\u00e1rio nas finan\u00e7as atrav\u00e9s das devidas cadernetas prediais que, na maioria dos im\u00f3veis ou terrenos antigos, n\u00e3o coincidem com os registos prediais municipais; implicando ajustes que mais anos podem tardar. E havia tamb\u00e9m as habituais mensalidades de luz, \u00e1gua e g\u00e1s a ter de resolver. Para colmatar o intrincado esquema kafkiano, o imposto de selo \u2013 o dito pagamento ao estado \u2013 n\u00e3o s\u00f3 era cobrado a J., como tamb\u00e9m \u00e0 sua falecida tia-av\u00f3 Maria Ant\u00f3nia que, por n\u00e3o ter terminado o pagamento do mesmo imposto a quando o falecimento de sua irm\u00e3 Maria Jos\u00e9, em vida, cabia agora a J. essa mesma contribui\u00e7\u00e3o, sobre o mesmo imposto, a dobrar. Pensou para consigo: \u201cSe algo me acontecesse agora, quem herdasse o meu legado teria de pagar o mesmo imposto tr\u00eas vezes sobre a mesma casa, uma por si mesmo, e duas por dois fantasmas. E assim sucessivamente.\u201d J. sentia como se lhe fora entregue uma encomenda que ele n\u00e3o sabia que lhe era destinada, a troco de um recibo que nunca tivera.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lembrou-se, num golpe, aos 14 anos, quando a criatura ac\u00e9fala das finan\u00e7as decretou que a sua m\u00e3e deveria pagar uma multa sobre ajudas de custo que o seu pai, j\u00e1 falecido, n\u00e3o havia declarado numa das empresas em que trabalhara. Ajudas de custo de viagens que fazia em servi\u00e7o \u00e0 filial da empresa em Lisboa (cidade onde J. agora habitava). Bilhetes comprados diretamente a uma ag\u00eancia de viagens por uma empresa que nunca os declarara e que, ap\u00f3s um <em>jogo de cadeiras<\/em> pol\u00edtico, sobrara para os que j\u00e1 l\u00e1 n\u00e3o estavam. E, embora ningu\u00e9m duvidasse da dignidade de seu falecido pai, faziam \u00e0 sua m\u00e3e (e a si) pagar. \u201cSe n\u00e3o o fizer, algo lhe ser\u00e1 feito\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lembrou-se tamb\u00e9m, poucos anos depois desse processo come\u00e7ar (mas n\u00e3o terminar), quando um homem lhe aparecera l\u00e1 em casa \u2013 um fiscal da seguran\u00e7a social \u2013 perguntando porque \u00e9 que o seu pai ainda estava de baixa. A sua m\u00e3e ouviu-o pacientemente e no fim indicou ao fiscal o Cemit\u00e9rio de Paranhos para que este pudesse proceder com a sua linha de inqu\u00e9rito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde ent\u00e3o, crescera pensando nessa criatura ac\u00e9fala como um mafioso de baixa estatura scorcesiano que entra no estabelecimento do comerciante local prometendo que, se este lhe entregar um valor a cada m\u00eas, n\u00e3o ver\u00e1 a sua loja <em>propensa a acidentes<\/em>. \u201cPague-nos e tudo correr\u00e1 bem.\u201d Criatura essa que, agora, voltava os seus globos oculares para J. uma vez mais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Poderiam ser estas coisas do seu passado, al\u00e9m gen\u00e9tica, que fizeram de si&#8230; que fizeram de si algu\u00e9m com o gosto pelo que \u00e9 rebuscado e torcido sobre si mesmo? Com o gosto pelos processos enigm\u00e1ticos encadeados em jogos de mais enigmas, de enigmas em <em>mise en abyme<\/em>. Quereria ele reviver esse trauma, esse processo kafkiano vezes sem conta at\u00e9 poder, por fim, encontrar uma solu\u00e7\u00e3o pelos seus pr\u00f3prios termos? Ou, pior, estaria ele bem unicamente e apenas enquanto preso a estes processos, n\u00e3o querendo verdadeiramente libertar-se deles? Estando verdadeiramente em casa, quando com eles? Aninhado num deleite de trauma. Como Nathanael para com os seus <em>olhos<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, mesmo no fundo da sua nuca, a voz de Dr. Lib ainda reverberava e, ao contr\u00e1rio da sua espectativa, levantava-o da sua autocomisera\u00e7\u00e3o. \u201cO que ficara dela agora \u00e9 seu. Tenha-a conhecido bem ou n\u00e3o, mere\u00e7a-o ou n\u00e3o, herdou-o. Ser\u00e1 propriet\u00e1rio em vida dos seus arquivos. Aqueles que n\u00e3o se apagaram com ela. Bem&#8230; propriet\u00e1rio n\u00e3o ser\u00e1 bem a palavra correta. Locat\u00e1rio. Sim. Locat\u00e1rio. Hermen\u00eauticamente falando, a palavra serve um prop\u00f3sito mais fidedigno. Habitar\u00e1 os seus arquivos em vida, pagando um pre\u00e7o ajustado por isso. O Estado assim o ir\u00e1 garantir. Morte e finan\u00e7as, <em>mein freund<\/em>. Morte e finan\u00e7as.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cUma heran\u00e7a\u201d, pensou. \u201cQuem diria. O mundo tem um estranho sentido de humor. Ou melhor, de ironia.\u201d<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">6. De Tempo Contado (Regresso).<\/h2>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se na vers\u00e3o radical o anarquivar se apresenta como destrui\u00e7\u00e3o do arquivo, em todas as imagens que dele se fa\u00e7a est\u00e1 em acto j\u00e1 uma certa <em>anarquiva\u00e7\u00e3o<\/em>, sustentando estrat\u00e9gias v\u00e1rias <em>em torno dos limites<\/em> da <em>Arch\u00e9<\/em>. (Miranda, 2017, p. 49)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J. n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es nem o perfil para salvar esta distante moradia, pelo que a sua segunda visita \u00e0 casa era mais radical. Agora que o mobili\u00e1rio mais <em>eminente<\/em> estava salvaguardado no Porto, os m\u00f3veis que ficavam seriam vendidos ao desbarato para esvaziar a casa, que seria igualmente posta \u00e0 venda, <em>estripada<\/em>. Assim, o plano era <em>triar<\/em> o que restava. Triar era a palavra certa. Assim como Dominique Jean Larrey, o cirurgi\u00e3o chefe do ex\u00e9rcito de Napole\u00e3o, priorizara a assist\u00eancia m\u00e9dica de acordo com a gravidade dos soldados feridos e n\u00e3o pela sua patente; tamb\u00e9m o fazia J. aos documentos que restavam, numa interpreta\u00e7\u00e3o talvez menos dram\u00e1tica da analogia; n\u00e3o pela raz\u00e3o ou conhecimento de causa, j\u00e1 que n\u00e3o era especialista em nada do que ali estava, mas pelo instinto da sua experi\u00eancia, do \u00f3tico, do t\u00e1ctil ou do sexto sentido e do que descobrira dos seus antepassados. E tamb\u00e9m da praticabilidade do arquivamento que se seguiria: onde guardar nas condi\u00e7\u00f5es certas, protegido de humidade ou mau uso; a quem dar ou doar; como transportar; entre muitos outros fatores log\u00edsticos. Tinha umas horas para o fazer e sabia que o foco era aquela parede do escrit\u00f3rio revestida de possibilidades. \u00c0s cinco da tarde chegaria o t\u00e1xi monovolume que os levaria de volta ao Porto com o que decidisse levar dali. Quanto ao resto&#8230; pedira a Z\u00e9lia para destruir. Mas J. n\u00e3o imaginava a intensidade da ang\u00fastia que se avizinhava.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Usou a pesada chave para abrir a porta da cozinha que dava ao interior da casa e logo percorreu os corredores que levavam ao atafulhado escrit\u00f3rio; isto \u00e9, at\u00e9 um p\u00e9 em falso o enfiar ch\u00e3o adentro. Os restos de madeira podre estatelam-se l\u00e1 em baixo, numa das lojas, a cerca de tr\u00eas metros de onde J. estava. Com o joelho e o orgulho feridos, J. puxa-se para cima, sacudindo o caruncho das cal\u00e7as. \u201cIsto \u00e9 uma armadilha\u201d, pensa, enquanto espreita pelo buraco, tentando equilibrar o peso do seu corpo pelas t\u00e1buas. L\u00e1 em baixo, iluminados por uma porta semiaberta, viam-se barris de madeira podre, cobertos por espessos len\u00e7\u00f3is de teias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A imagina\u00e7\u00e3o de J. hiperbolizou de imediato as mem\u00f3rias feitas documentos de Louise Bourgeois, nas suas formas de aranha, mas com um <em>twist<\/em>: ao inv\u00e9s da tecel\u00e3 materna da artista<sup>6<\/sup>, o espectro da sua tia-av\u00f3, tecel\u00e3 de linho, encasulava-se numa figurativa teia que envolvia a casa e \u00e0 qual dava, apenas, um acesso condicionado \u00e0 sua presen\u00e7a fantasm\u00e1tica. At\u00e9 mesmo a J., seu legat\u00e1rio. \u201cO que entra n\u00e3o sai\u201d, ouvia-se, abafado pelas teias das paredes. Em vez de um saco de ovos de m\u00e1rmore no ventre de uma das <em>Maman<\/em> (1999)<sup>10<\/sup> de Louise, o interior da casa de Rebordelo acumulava ou, <em>gestava<\/em>, todo o tipo de coisas e tralhas. J. e Tona partilhavam o <em>impulso<\/em> de Bourgeois. Jerry Gorovoy, que assistiu a artista durante os 30 \u00faltimos anos da sua vida comentara que esta \u201cnunca deitava nada fora\u201d (Lubow, 2006) e que, na altura da sua morte em 2010, ainda guardava os recibos do g\u00e1s do seu primeiro apartamento em Paris. Tudo era material para ser processado e alimentar a sua pr\u00e1tica art\u00edstica. Eram os objetos <em>intra-entre-lugar<\/em> que J. bem conhecia. Todos eles eram avatares do tio Misha de Ilya Kabakov.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J. balanceou-se lentamente at\u00e9 ao escrit\u00f3rio. Tinha o tempo contado. For\u00e7ou a porta, meia empenada, at\u00e9 a abrir. A um canto, o conjunto de embrulhos de papel\u00e3o datados de 1926 a 1937, atados por cord\u00e9is, devolviam-lhe a mirada. Ao longe reverberava o estr\u00e9pito dos restos de mobili\u00e1rio que Z\u00e9lia e sua m\u00e3e atiravam pela janela de um dos quartos, at\u00e9 \u00e0 entrada da casa. J. imaginou a pilha de escombros em fim de vida, depois focou-se uma vez mais na parede que arquivava colunas de b\u00edblias, romances, livros de propaganda pol\u00edtica, revistas, di\u00e1rios e notas, entre tantos outros c\u00f3dices que a\u00ed habitavam desde as primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX. Uma categoriza\u00e7\u00e3o feita ao longo de pelo menos tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es encontraria o violento e abrupto fim dentro de momentos. Era definitivo, ele era o arconte daquele arquivo e o seu ju\u00edzo ia ser proferido. Foi ent\u00e3o que sobre ele se abateu esse temor existencial do ditar de uma decis\u00e3o impratic\u00e1vel. Para o arquivo. Ou. Para o <em>enterramento<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A a\u00e7\u00e3o que se seguiu foi r\u00e1pida e febril. Para cada revista <em>Maria<\/em>, saltava um livro de preces encadernado a cabedal que parecia inestim\u00e1vel. A escolha parecia f\u00e1cil. No entanto, havia sempre aquele eco, l\u00e1 atr\u00e1s, que soprava: \u201cQuem sabe, talvez daqui por uns s\u00e9culos, at\u00e9 a revista <em>Maria<\/em> fornecer\u00e1 pistas inestim\u00e1veis para o que fomos.\u201d J. lembrou-se do <em>Motel dos Mist\u00e9rios<\/em> (Macaulay, 1979), um livro ilustrado que lia em crian\u00e7a. Neste, a humanidade de um long\u00ednquo futuro, tecnologicamente avan\u00e7ada, mas ignorante do seu passado enterrado pelo tempo, escava os restos arqueol\u00f3gicos de um motel dos anos 80. As conjeturas e interpreta\u00e7\u00f5es dos achados, extraordin\u00e1rias na imagina\u00e7\u00e3o destes p\u00f3s humanos, eram t\u00e3o hilariantes quanto banais, particularmente quando vistas pelo nosso ponto de vista, de humanos do seu passado long\u00ednquo. Uma casa de banho \u00e9 interpretada como uma c\u00e2mara de ora\u00e7\u00e3o, um tampo de sanita e escovas de dentes s\u00e3o ornamentos da vestimenta sacerdotal e uma sanita, um altar. A p\u00e1ginas tantas, um dos <em>p\u00f3s-arque\u00f3logos <\/em>recria o que pensa ter sido a cerim\u00f3nia que ocorria no <em>templo<\/em>, debru\u00e7ando-se sobre a sanita e cantando para esta. Todas as suas conjeturas est\u00e3o factualmente erradas, mas n\u00f3s, desde o nosso tempo, nada podemos fazer. N\u00e3o podemos berrar ao Anjo da Hist\u00f3ria para que nos salve, para que mude e reponha o que se apagou. Estamos impotentes. Os p\u00f3s-arque\u00f3logos n\u00e3o nos ouvir\u00e3o. \u201cEstar\u00e3o tamb\u00e9m assim os nossos antepassados para connosco?\u201d, perguntou-se J. A ang\u00fastia tornava-se agita\u00e7\u00e3o e a agita\u00e7\u00e3o, c\u00f3lera.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cPara o fogo!\u201d A quem interessa o arquivo dos que morrem, o que fazer com a tralha que resta quando n\u00e3o se faz chegar a um seu novo \u00fatil colecionador? Quantos objetos \u2013 que a tantos interessariam \u2013 v\u00e3o parar ao fogo? Muitos daqueles arquivos da hist\u00f3ria preservados por cerca de um s\u00e9culo, deslocar-se-iam do escrit\u00f3rio da moradia da Portelinha para a sua pira mortu\u00e1ria, para o seu esquecimento, para o n\u00e3o mais; apenas com J. como testemunha. Testemunha que se apagaria, tamb\u00e9m num futuro. Se arch\u00e9 \u00e9 princ\u00edpio, a morte tamb\u00e9m o \u00e9, no regresso ao inorg\u00e2nico. Se calhar sempre foi suposto ser assim. Para quem ficar\u00e1 este arquivo, se n\u00e3o h\u00e1 realmente a quem ficar no fim de contas. Mais n\u00e3o vale enterr\u00e1-lo? Vot\u00e1-lo a um esquecimento? A um pass\u00edvel futuro reconhecimento de estranheza familiar? A um pass\u00edvel retorno do recalcado? N\u00e3o voltar\u00e1 mais forte? Mais espectralmente refor\u00e7ado? No poder aur\u00e1tico que a proximidade do fim ou mesmo o pr\u00f3prio fim lhe atribui? Ao esquecimento! \u201c\u00c0 <em>oubliette<\/em>!\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi ent\u00e3o que J. se deparou com uma arca. Ou melhor&#8230; uma arca se deparou com ele. Esbo\u00e7ou um sorriso insano. Pensou no jogo de palavras que aquele objeto lhe desenhava na mente. Arca, do latim, Arch\u00e9 do grego. Do salvamento do dil\u00favio do Deus abra\u00e2mico aos cofres que carregavam riquezas e sofrimento humano entre continentes, aos locais onde os registos do estado eram preservados.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">[Da] ordem do conhecimento na era cl\u00e1ssica da Europa dos s\u00e9culos XVII e XVIII, \u00e0 confessadamente \u201cetimologia l\u00fadica\u201d de Michel Foucault, com o arch\u0113 que motivou a sua arqueologia do arquivo. O arquivo deveria ser visto como um conjunto de rela\u00e7\u00f5es de transforma\u00e7\u00e3o e deslocamento, n\u00e3o tanto vest\u00edgios de alguma forma salvos da inunda\u00e7\u00e3o, mas sim princ\u00edpios que governam a sua reten\u00e7\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o. A proposta era considerar os fatos do discurso passado n\u00e3o como documentos, mas como o que deveria ser entendido como \u201cmonumentos\u201d a serem escavados no dil\u00favio.&nbsp; (Schaffer, 2019, p.152)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J. abre-a, s\u00f4frego. L\u00e1 dentro, <em>carregada<\/em> at\u00e9 cima, mais cadernos se somavam. \u201cO pensamento de Salazar: votar \u00e9 um grande dever\u201d, l\u00ea J. na capa de um deles, escrito a letras garrafais vermelhas. O mundo respondia-lhe, soltando os elementos aprisionados de uma outra <em>oubliette<\/em><sup>8<\/sup>. Havia muitos mais daqueles documentos, escondidos em malas e arcas que a periferia da sua vis\u00e3o nem sequer tinha considerado. Mas o interior daquela particular arca parecia chamar por ele. No seu interior, a promessa da possibilidade de&#8230; da possibilidade do <em>todo<\/em>. Dentro de uma arca como qualquer outra. Mas esta era&#8230; diferente. N\u00e3o muito pequena. N\u00e3o muito grande. Mesmo \u00e0 sua medida. O seu interior&#8230; mais&#8230; familiar&#8230; que a sua pr\u00f3pria casa. Come\u00e7ou a esvazi\u00e1-la de todo o seu conte\u00fado. E depois&#8230; e depois decidiu&#8230; e depois decidiu experiment\u00e1-la. Para ver se l\u00e1 cabia. E foi ent\u00e3o que se meteu l\u00e1 dentro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A princ\u00edpio nada se passou&#8230; mas logo, de s\u00fabito, algo aconteceu. De dentro ecoou uma voz. Falava em alem\u00e3o mas, por algum estranho motivo, J. conseguia compreend\u00ea-la. \u201cBem-vindo a casa, meu bom homem; estivemos \u00e0 sua espera\u201d, sussurrou-lhe.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"688\" src=\"https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/AL_mala.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1346\" srcset=\"https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/AL_mala.jpg 1024w, https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/AL_mala-300x202.jpg 300w, https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/AL_mala-768x516.jpg 768w, https:\/\/under.fba.up.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/AL_mala-18x12.jpg 18w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Posf\u00e1cio.<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Viena, 14 de novembro de 1919.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando pus os olhos neste particular paciente que, de resto, ficar\u00e1 an\u00f3nimo, senti nele um oceano de ang\u00fastia existencial, um temor espectral que parecia compeli-lo a buscar coisas que assegurassem ou confirmassem a sua exist\u00eancia no mundo ou, pelo menos, na sua realidade. Objetos, parafern\u00e1lia, faturas que, ao inv\u00e9s de se provarem como uma nota fiscal, provavam a sua passagem pela vida, tranquilizando-o. Era, comprovadamente, uma puls\u00e3o pelo colecionismo. Em particular de objetos min\u00fasculos&#8230; que gostava de colocar em pequenas redomas de vidro que espalhava pela sua casa. Um apego por certos grupos de coisas cuja taxonomia era por ele decidida. O que, pensando melhor, me faz agora compreender que este fasc\u00ednio pela cole\u00e7\u00e3o e o seu <em>apagamento<\/em> (da cole\u00e7\u00e3o e se si pr\u00f3prio, como que fossem uma e a mesma coisa) estariam de m\u00e3o dadas \u2013 como anotaria Walter Benjamin n&#8217;<em>As<\/em> <em>Passagens de Paris<\/em> sobre o tema do colecionador \u2013 enquanto um sinal da aproxima\u00e7\u00e3o da morte. Um tudo-nada t\u00e9trico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s v\u00e1rias sess\u00f5es com o <em>Colecionador<\/em> \u2013 como decidi apelidar-lhe \u2013, percebi que o seu pai falecera aquando a sua puberdade e que, um assumir de s\u00fabitas responsabilidades, acrescidas de diversos epis\u00f3dios traum\u00e1ticos com os organismos de Estado \u2013 que chamava de <em>criatura ac\u00e9fala<\/em><sup>11<\/sup> \u2013 haviam-no enchido de uma tremenda ansiedade. E, obviamente, dor. Segundo o meu colega Sigmund Freud, a dor \u00e9 um sintoma que indica um bloqueio na hist\u00f3ria de uma pessoa. Devido ao bloqueio, o paciente n\u00e3o \u00e9 capaz de continuar a sua hist\u00f3ria. As dores psicog\u00e9nicas s\u00e3o uma express\u00e3o de palavras abafadas e reprimidas. A palavra tornou-se <em>coisal<\/em>. Por isso, a minha terapia consistiu em libertar a pessoa desse bloqueio da linguagem para fazer fluir de novo a hist\u00f3ria. N\u00e3o posso dizer que tal tenha corrido pelo melhor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De s\u00fabito os seus apetites de <em>completista<\/em> compulsivo viraram-se para horizontes mais&#8230; borgianos, de um realismo m\u00e1gico que, na sua perspetiva, banalizava as mais extraordin\u00e1rias fantasias<sup>12<\/sup>. Falava de um espa\u00e7o singular \u2013 um dep\u00f3sito \u2013 para onde julgava estar a encaminhar-se, recebendo instru\u00e7\u00f5es aqui e ali a partir de uma estranha <em>criatura<\/em> que mais parecia vir do campo da metaf\u00edsica ou, melhor ainda, do seu pr\u00f3prio <em>Id<\/em>. Este espa\u00e7o parecia adquirir progressivamente o seu fasc\u00ednio, principalmente ap\u00f3s descobrir que se tratava de um lugar onde, segundo a sua pr\u00f3pria descri\u00e7\u00e3o, \u201creunia o arquivo de tudo\u201d, preservando o <em>sedimento<\/em> \u201cde uma humanidade cujo cosmos j\u00e1 h\u00e1 muito decidira extinguir\u201d e cujos res\u00edduos seriam de outra forma apagados pela natural <em>digest\u00e3o<\/em> do universo, condi\u00e7\u00e3o que nomeou de <em>Ab-humanidade<\/em>. E, quanto ao espa\u00e7o, chamava-o de <em>topos hyperoranios<\/em>, claramente retirado do lugar plat\u00f3nico das ideias que Benjamin comentara \u2013 mais uma vez n&#8217;<em>As<\/em> <em>Passagens<\/em> \u2013 ser a forma mais pr\u00f3xima \u00e0 aproxima\u00e7\u00e3o dos objetos colecionados, melhor ainda que a nossa pouco confi\u00e1vel mem\u00f3ria. Esta era uma ilha ut\u00f3pica rodeada de, l\u00e1 est\u00e1, dor. A estranheza de tudo aquilo era unicamente suplantada pelo fasc\u00ednio da ideia de <em>mist\u00e9rio<\/em> e o que esse conceito det\u00e9m em si mesmo. Mist\u00e9rio pelo mist\u00e9rio. Insond\u00e1vel. E que s\u00f3 leva a nada mais que questionamentos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Posso ter cometido um erro quando, talvez por m\u00f3rbida curiosidade, instiguei a sua imagina\u00e7\u00e3o, questionando-o pelos detalhes de tal espa\u00e7o. Relatou-me que desde l\u00e1 se conseguia acessar ao produto de toda a hist\u00f3ria da humanidade. De como desde a\u00ed se possibilitava um ponto de vista imposs\u00edvel, uma esp\u00e9cie de olhar lacaniano, como que de um deus ou da pr\u00f3pria realidade, observando a humanidade desde uma mais lata dimens\u00e3o; e a partir da\u00ed compreendendo que o seu in\u00edcio e fim c\u00f3smico se repetia em <em>eternos retornos<\/em> nietzschianos (que constantemente recusavam a aceitar o seu destino, em nega\u00e7\u00e3o ao <em>amor fati<\/em><sup>13<\/sup>), e de como, por sua vez, esses eram perpetrados pelo constante enterramento e desenterramento de indiv\u00edduos, coisas e acontecimentos \u2013 tanto pessoais quanto hist\u00f3ricos \u2013 em movimentos c\u00edclicos de repress\u00e3o e repeti\u00e7\u00e3o, num perp\u00e9tuo <em>impulso de morte<\/em> (Freud, 1920); como um <em>Ouroboros<\/em> que eternamente consome a sua pr\u00f3pria cauda. Desde a no\u00e7\u00e3o de <em>corso e ricorso<\/em><sup>14<\/sup> que Giambattista Vico inaugura n&#8217;<em>A Ci\u00eancia Nova<\/em> (1744) (e que ter\u00e1 influenciado Marx), onde a idade dos Deuses, dos Her\u00f3is e dos Homens, seguida de colapso, se faz retornar em ciclos civilizacionais; passando pelo o retorno das criaturas mitol\u00f3gicas hom\u00e9ricas que F. W. Schelling apontava na <em>Filosofia da Mitologia<\/em> (1857) \u2013 inaugurando a express\u00e3o de <em>unheimliche<\/em><sup>15<\/sup> \u2013 trazendo de volta algo que foi escondido antes, aos semelhantes enterramentos observados pelo discurso da Hist\u00f3ria e referidos nos <em>Arquivos do Mal<\/em> (1995) de Jacques Derrida<sup>16<\/sup>; a humanidade mant\u00e9m uma imut\u00e1vel compuls\u00e3o autodestrutiva do regresso ao seu <em>estado inorg\u00e2nico<\/em>. O <em>Colecionador<\/em> atinha-se &#8220;portanto ao ponto de vista de que a inclina\u00e7\u00e3o \u00e0 agress\u00e3o \u00e9 uma predisposi\u00e7\u00e3o pulsional origin\u00e1ria e [retornava sempre] \u00e0 ideia de que a cultura encontra nela o seu obst\u00e1culo mais poderoso.&#8221; (Freud, 2020, p. 375) \u00c9 caso para dizer, em boa verdade: &#8220;<em>Homo homini lupus<\/em> [o homem \u00e9 o lobo do homem]; quem \u00e9 que tem coragem, depois de todas as experi\u00eancias da vida e da hist\u00f3ria, de contestar esta frase?&#8221; (Freud, 2020, p. 363).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esta rela\u00e7\u00e3o c\u00edclica era-me, de certo, profundamente an\u00e1loga ao processo de trauma, repress\u00e3o e subsequente <em>retorno do recalcado<\/em>, engatilhado pelo encontro com a estranheza do <em>unheimliche<\/em>. Mas o que tinha isto a ver com a sua compuls\u00e3o pelos objetos, pelas cole\u00e7\u00f5es? S\u00f3 fiz a liga\u00e7\u00e3o algumas sess\u00f5es mais tarde e se calhar tarde demais, quando o <em>Colecionador<\/em> me atirou, em pleno discurso: &#8220;Ficam as coisas.&#8221; Claro! Era t\u00e3o \u00f3bvio. As coisas <em>reverberavam<\/em> as passagens dos que as tocavam, dos que as fizeram, dos que as herdaram. Eram, para todos os efeitos, a plena defini\u00e7\u00e3o das <em>ru\u00ednas<\/em> benjaminianas que o seu <em>Anjo da Hist\u00f3ria<\/em> (Benjamin, 1940) tentava salvar, mas que n\u00e3o conseguia, impulsionado pelos vendavais do progresso, progresso esse que o paciente tentava suplantar, levando-o \u00e0 sua destrui\u00e7\u00e3o c\u00edclica. Essas <em>coisas<\/em> potenciavam-se desses <em>espectros<\/em>; fantasmas que Derrida, em seu <em>Espectros de Marx<\/em> (1993) nomeara capazes de, desde o <em>al\u00e9m<\/em>, fazer <em>agir<\/em> fisicamente algo no nosso presente, assombrando-o com as suas ideias. Em resposta a uma carta de Albert Einstein dirigida a si sobre o porqu\u00ea da guerra, o meu caro Sigmund escrevera (em setembro de 1932) que &#8220;a puls\u00e3o de amor dirigida aos objetos requer um complemento da puls\u00e3o de apoderamento, se alguma vez ela quiser se apropriar de seu objeto.&#8221; (Freud, 2020, p. 435) Poderia afirmar, com alguma seguran\u00e7a, que este bin\u00f3mio de amor e apoderamento ditava em absoluto subjugo o <em>ethos<\/em> do nosso <em>Colecionador<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi ent\u00e3o, quando parecia estar a chegar a algum lado, que o <em>tapete me foi puxado por debaixo dos p\u00e9s<\/em>. Acontece que, certo dia, o <em>Colecionador<\/em> deixou de aparecer. Algumas semanas ap\u00f3s o facto, decidi procur\u00e1-lo. Foi ent\u00e3o que, para meu espanto, compreendi que ningu\u00e9m sabia dele nem t\u00e3o pouco que este parecia sequer existir. Seguindo a morada da sua correspond\u00eancia, assinalada nos meus ficheiros, fui dar a um armaz\u00e9m semi-abandonado. Dei por mim nos arrabaldes da cidade, num espa\u00e7o deprimente, devoto ao esquecimento, repleto dos restos do que <em>fora<\/em>. Acabei por for\u00e7ar a fechadura, algo que jamais tinha feito e que confesso me ter dado um certo prazer pela sua transgress\u00e3o. O espa\u00e7o que encontrei no seu interior em nada tinha a ver com a decr\u00e9pita atmosfera circundante. Era ass\u00e9tico. Nele, um conjunto de objetos \u2013 mesas decorativas, mesinhas de cabeceira, mesas de jogo, objetos encapsulados em redomas de vidro, documentos catalogados em forma de diar\u00edstico romance e outra semelhante parafern\u00e1lia \u2013 alinhavam-se ordenadamente, aguardando-me.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Subitamente senti-me parte de tudo aquilo, como se sempre fora suposto encontrar aquela cole\u00e7\u00e3o. Como se esta fosse a \u00fanica coisa desse <em>Colecionador<\/em> neste mundo e eu, o <em>arconte<\/em> de tal esp\u00f3lio. O guardi\u00e3o de tal cripta, ou cifra. Pensei longamente sobre todas aquelas coisas nos tempos que se seguiram; sobre aquele <em>Arquivo Liminar<\/em>, <em>ou<\/em> sobre <em>o<\/em> <em>Espectro no (An)Arquivo do Colecionador<\/em> que agora tomava conta de mim&#8230; ou melhor, pelo qual eu, agora, zelava. Emergia um cat\u00e1logo que, \u00e0 luz de Aby Warburg, me atreveria a chamar de&#8230; <em>atlas<\/em>. Acerca deste, Didi-Huberman ter\u00e1 dito:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao decompor a hist\u00f3ria presente, espectros, fantasmas, seres ou coisas anacr\u00f3nicas emergem do atlas: \u00e9 o impens\u00e1vel da repeti\u00e7\u00e3o, o desconhecido das repress\u00f5es e os &#8216;retornos do recalcado&#8217;. Talvez n\u00e3o haja reflex\u00e3o \u2013 nem contesta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u2013 sobre a hist\u00f3ria contempor\u00e2nea sem uma atitude geneal\u00f3gica e <em>arqueol\u00f3gica<\/em> que revele os seus sintomas, os seus movimentos inconscientes. (Didi-Huberman, 2010, p.396)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tendo isto em conta, tentarei ter o cuidado de n\u00e3o me perder: de n\u00e3o tentar em v\u00e3o resolver o mist\u00e9rio, mas sim de mergulhar na atmosfera que este produz, prevenido tamb\u00e9m por Didi-Huberman:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Basta n\u00e3o sermos ing\u00e9nuos, nem no que diz respeito aos arquivos nem no que diz respeito \u00e0 montagem que a partir deles se produz: os primeiros n\u00e3o nos d\u00e3o de todo a verdade &#8216;nua e crua&#8217; do passado e s\u00f3 existem porque se constroem a partir do conjunto das quest\u00f5es ponderadas que lhes devemos colocar; a segunda, vem precisamente dar forma a esse conjunto de quest\u00f5es, da\u00ed a sua import\u00e2ncia \u2013 est\u00e9tica e epistemol\u00f3gica \u2013 crucial. (Didi-Huberman, 2012, p. 170)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>Prof. Dr. Hector Lib,<br><\/em><\/strong>Das Allumfassende Archiv-Institut<br><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Notas<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><sup>1 <\/sup><\/strong>\u201cEla mandou buscar um daqueles bolos pequenos e redondos chamados \u2018madalenas\u2019, que parecem ter sido moldados na valva estriada de uma vieira. E logo, maquinalmente, acabrunhado com o dia sombrio e com a perspetiva de um triste amanh\u00e3, levei \u00e0 boca a colher de ch\u00e1 onde tinha deixado amolecer um peda\u00e7o de madalena. Mas, no mesmo instante em que o gole misturado com as migalhas do bolo tocou no meu palato, eu estremeci, atento ao que se passava de extraordin\u00e1rio em mim. Fora invadido por um prazer delicioso, isolado, sem no\u00e7\u00e3o da sua causa. Imediatamente me tornara indiferentes a vicissitudes da vida, inofensivos os seus desastres, ilus\u00f3ria a sua brevidade, do mesmo modo que o amor opera, enchendo-me de uma ess\u00eancia preciosa: ou melhor, essa ess\u00eancia n\u00e3o estava em mim, era eu.\u201d (Proust, 2023, p. 59)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><sup>2 <\/sup><\/strong>Adaptado da faixa sonora <em>Boxman (Mr. Niles)<\/em> do \u00e1lbum dos Tuxedomoon <em>You<\/em> (1987). Conta a est\u00f3ria de um homem que chega a casa para encontrar o caixote de um televisor. Caixote este que instintivamente, ou a partir de um chamamento que n\u00e3o consegue suprimir, o homem coloca na sua pr\u00f3pria cabe\u00e7a. A ambi\u00eancia sonora, assim como as vozes, evocam as vibra\u00e7\u00f5es noir-mec\u00e2nico-viscerais de body horror de um filme de David Cronenberg. A transcri\u00e7\u00e3o original da faixa sonora dita:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Coming home from work, a day like any other. But this day, I found a box. Or\u2026 a box found me. Just an ordinary box. Once containing a television set. But the way it looked. More\u2026 like\u2026 home. Then home. So, I sat down and looked at it for a while. And then I\u2026 tried it on\u2026 for size. And when I got my head inside. (muffled voice) I heard a different sound\u2026 all together. (Another strange voice appears) Welcome home Mr. Niles. We\u2019ve been waiting for you\u2026 (voice transform into a maniacal laughter)<\/em> (Geduldig, 1987).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Faixas citadas, escrita e voz de Bruce Geduldig; copyright e publica\u00e7\u00e3o de Crammed Music e Joeyboy Music, gravado no Daylight Studio (B\u00e9lgica); masterizado no Studio-Nord-Bremen (Alemanha).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><sup>3 <\/sup><\/strong>A Escala de Kardashev \u00e9 um m\u00e9todo proposto pelo astrof\u00edsico sovi\u00e9tico Nikolai Kardashev para medir o grau de desenvolvimento tecnol\u00f3gico de uma civiliza\u00e7\u00e3o. Foi apresentado originalmente em 1964 e utiliza-se de tr\u00eas etapas ou tipos, classificando as civiliza\u00e7\u00f5es baseado na quantidade de energia coletada, utilizada e processada e seu aumento em escala logar\u00edtmica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><sup>4 <\/sup><\/strong>O paradoxo de Fermi prop\u00f5e a aparente contradi\u00e7\u00e3o entre as altas estimativas de probabilidade de exist\u00eancia de civiliza\u00e7\u00f5es extraterrestres e a falta de evid\u00eancias para, ou contato com tais civiliza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><sup>5 <\/sup><\/strong>O termo p\u00f3s humanidade ou p\u00f3s humano (Post Human Condition) est\u00e1 j\u00e1 conotado com o final do per\u00edodo de desenvolvimento social conhecido como humanismo (Pepperell, 1995, p. iv). Nesse sentido, o p\u00f3s humano pensa as quest\u00f5es que a evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica apresentou enquanto possibilidade para repensar os limites do biol\u00f3gico: a rob\u00f3tica, a comunica\u00e7\u00e3o, a prost\u00e9tica, a intelig\u00eancia e vida artificiais, a nanotecnologia, a manipula\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica, para apontar alguns.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><sup>6 <\/sup><\/strong>Na teoria lacaniana, o olhar \u00e9 um fen\u00f3meno perturbador: o sujeito nunca \u00e9 completamente dono da sua vis\u00e3o, pois o olhar do outro \u2013 o <em>olhar do mundo<\/em> \u2013 afeta-o e desafia a sua perce\u00e7\u00e3o e posi\u00e7\u00e3o. O sujeito \u00e9, por assim dizer, olhado antes de poder olhar, o que gera uma sensa\u00e7\u00e3o de perda de controlo ou de fragmenta\u00e7\u00e3o da identidade. No seu livro <em>Maus Novos Tempos. Arte, Cr\u00edtica, Emerg\u00eancia<\/em>. (2015), Hal Foster faz uma liga\u00e7\u00e3o significativa entre o conceito do olhar lacaniano e a arte contempor\u00e2nea, que explora e exp\u00f5em a tens\u00e3o entre o que \u00e9 visto e o que escapa \u00e0 vis\u00e3o, entre o que \u00e9 mostrado e o que \u00e9 reprimido. Uma arte que joga com o desconforto do espectador, que resistem \u00e0 compreens\u00e3o total ou ao consumo f\u00e1cil, num reflexo deste olhar lacaniano. Nesta fic\u00e7\u00e3o, a perspetiva sobre a qual o olhar \u00e9 estudado adquire as caracter\u00edsticas de realismo m\u00e1gico, invertendo-se, como sugere o coment\u00e1rio de \u017di\u017eek em <em>Lacrimae Rerum<\/em> (2005), para uma impossibilidade na qual o espectador \u201cadquire\u201d o poder do <em>olhar do mundo<\/em>, como quando um espectador v\u00ea al\u00e9m do ponto de mira limitado de um personagem num filme.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><sup>7<\/sup><\/strong> O filme <em>Tenet<\/em> (2020), de Christopher Nolan, inventa uma crono-tecnologia designada de \u201centropia invertida\u201d na qual se permite ao utilizador da mesma viver o tempo ao contr\u00e1rio, ou seja, da frente para tr\u00e1s. A perce\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m que viaje pela entropia invertida, revela um mundo com a particularidade de algu\u00e9m que faz <em>play <\/em>em<em> reverse<\/em> num qualquer dispositivo de imagem em movimento: as pessoas falam ao contr\u00e1rio, os carros movem-se para tr\u00e1s, a manh\u00e3 d\u00e1 lugar ao nascer do sol, que se p\u00f5e para a madrugada do dia anterior, etc.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><sup>8<\/sup><\/strong> Com anarquivo, Dr. Lib refere-se \u00e0s movimenta\u00e7\u00f5es que procuravam expor, contrariar e anarquizar as tend\u00eancias destrutivas do arquivo, essa pr\u00e1tica que for\u00e7a modelos r\u00edgidos de mem\u00f3ria que ordenam os acontecimentos de forma cronol\u00f3gica, alfab\u00e9tica, regional, geogr\u00e1fica, por grupo ou na\u00e7\u00e3o, enfim, de acordo com o c\u00e2none (About the Anarchive, n.d., The Future of Indeterminancy).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><sup>9<\/sup><\/strong> N\u2019<em>O Elogio da Inf\u00e2mia<\/em> (2006), Fernando Jos\u00e9 Pereira apresenta a inf\u00e2mia como um espa\u00e7o fronteiri\u00e7o e dissensual, essencial \u00e0 vida democr\u00e1tica, pois corporiza o antagonismo em contraste com a demanda liberal pelo consenso. Este territ\u00f3rio de resist\u00eancia amoral, afastado das l\u00f3gicas morais ou imorais, revela a vitalidade do conflito, especialmente num contexto contempor\u00e2neo onde o antagonismo est\u00e1 \u201cpacificado\u201d em mera competi\u00e7\u00e3o agon\u00edstica. A inf\u00e2mia ressurge como um ponto de resist\u00eancia contra o politicamente correto e a transpar\u00eancia consensual, sendo vista, tal como a arte, como um espa\u00e7o radical e necess\u00e1rio para desafiar a conformidade e a acomoda\u00e7\u00e3o no debate p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><sup>10 <\/sup><\/strong>Esta escultura de 9 metros de altura em bronze fundido representa um imponente aracn\u00eddeo que carrega dentro de si 32 <em>ovos<\/em> de m\u00e1rmore. Quando a vi desde a Alameda dos Liquidambares, lembrei-me imediatamente da imagem sublime do semelhante animal que atravessava, a passadas largas e lentas, a paisagem urbana de Toronto em <em>Enemy <\/em>(Villeneuve, 2012), filme que ter\u00e1 claramente bebido da mesma fonte referencial. Vi <em>Maman<\/em> (1999) aquando a exposi\u00e7\u00e3o em Serralves, <em>Louise Bourgeoise, Descal\u00e7ar um Tormento<\/em> em Janeiro de 2001. A pe\u00e7a, facultada pela funda\u00e7\u00e3o criada pela artista em 1984, The Easton Foundation, \u00e9 uma de v\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><sup>11 <\/sup><\/strong><em>Diz Dr. Lib:<\/em> Penso que a esta criatura ac\u00e9fala, o Colecionador se possa estar a referir \u00e0 complexa ideia de dispositivo de Agamben, a partir de Foucault: &#8220;(a.) \u00c9 um conjunto heterog\u00eaneo, lingu\u00edstico e n\u00e3o-lingu\u00edstico, que inclui virtualmente qualquer coisa no mesmo t\u00edtulo: discursos, institui\u00e7\u00f5es, edif\u00edcios, leis, medidas de pol\u00edcia, proposi\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas etc. O dispositivo em si mesmo \u00e9 a rede que se estabelece entre esses elementos. (b.) O dispositivo tem sempre uma fun\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica concreta e se inscreve sempre numa rela\u00e7\u00e3o de poder. (c). Como tal, resulta do cruzamento de rela\u00e7\u00f5es de poder e de rela\u00e7\u00f5es de saber.&#8221; (Agamben, 2009, pp. 28-29)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><sup>12 <\/sup><\/strong><em>Diz Dr. Lib:<\/em> Embora deva admitir se n\u00e3o ser\u00e3o estas fic\u00e7\u00f5es, por vezes, mais depuradas na <em>sua verdade<\/em> que a nossa pr\u00f3pria percep\u00e7\u00e3o da realidade?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><sup>13 <\/sup><\/strong><em>Diz Dr. Lib:<\/em> Nietzsche, Friedrich (1908) <em>Ecce Hommo<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><sup>14 <\/sup><\/strong><em>Diz Dr. Lib:<\/em> De acordo com Vico, as sociedades passam por tr\u00eas est\u00e1gios principais que se repetem ao longo do tempo: a <em>Idade dos Deuses<\/em>, marcada pelo dom\u00ednio da religi\u00e3o e da mitologia, onde as leis e as institui\u00e7\u00f5es s\u00e3o guiadas por cren\u00e7as sobrenaturais; a <em>Idade dos Her\u00f3is<\/em>, caracterizada pela forma\u00e7\u00e3o de aristocracias e her\u00f3is m\u00edticos, com valores baseados na for\u00e7a e na honra e a <em>Idade dos Homens<\/em>, onde emerge a raz\u00e3o, a democracia e as leis humanas baseadas no consenso racional. No entanto, a <em>Idade dos Homens<\/em> antecede um colapso e o ciclo recome\u00e7a, voltando \u00e0 <em>Idade dos Deuses<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><sup>15 <\/sup><\/strong><em>Diz Dr. Lib:<\/em> <em>Das Unheimliche<\/em> ou o estranho-familiar, numa quase imposs\u00edvel tradu\u00e7\u00e3o e sobre o qual o meu colega Sigmund grafou recentemente um sublime ensaio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><sup>16<\/sup><\/strong> <em>Diz Dr. Lib: <\/em>O estimado leitor ter\u00e1 j\u00e1 reparado que de forma anacr\u00f3nica o cito e tamb\u00e9m a outros, estando a escrever desde 1919, embora sobre isso prefira n\u00e3o me pronunciar.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Bibliografia<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Abbott, Edwin A. <em>Flatland: A Romance of Many Dimensions (by a Square).<\/em> London: Seeley &amp; Co., 1884.<br>Benjamin, Walter. <em>Magia e t\u00e9cnica, arte e pol\u00edtica: ensaios sobre literatura e hist\u00f3ria da cultura.<\/em> Obras escolhidas, vol. 1. 7.\u00aa ed. 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Acedido em 30 de novembro de 2023. <a href=\"http:\/\/pepsic.bvsalud.org\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1517-24302008000100005\">http:\/\/pepsic.bvsalud.org\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1517-24302008000100005<\/a>.<br>Miley, Mike. \u201cDeciphering the Indecipherable: Procedure as Art in Fincher\u2019s <em>Zodiac<\/em>.\u201d <em>Bright Lights Film Journal<\/em>, 31 de janeiro de 2010. Acedido em 10 de junho de 2024. <a href=\"https:\/\/brightlightsfilm.com\/deciphering-the-indecipherable-procedure-as-art-in-finchers-zodiac\/\">https:\/\/brightlightsfilm.com\/deciphering-the-indecipherable-procedure-as-art-in-finchers-zodiac\/<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Filmografia<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Alien.<\/em> Realiza\u00e7\u00e3o de Ridley Scott. 20th Century Fox, 1979.<br><em>Blade Runner.<\/em> Realiza\u00e7\u00e3o de Ridley Scott. The Ladd Company; Shaw Brothers, 1982.<br>\u201cCobro.\u201d <em>Only Murders in the Building<\/em>, temporada 3, epis\u00f3dio 7. Argumento de Ben Philippe e Jake Schnesel. Realiza\u00e7\u00e3o de Cherien Dabis. Exibido em 12 de setembro de 2023. Netflix.<br><em>Enemy.<\/em> Realiza\u00e7\u00e3o de Denis Villeneuve. Path\u00e9; Entertainment One; et al., 2013.<br><em>Forbidden Planet.<\/em> Realiza\u00e7\u00e3o de Fred M. Wilcox. Metro-Goldwyn-Mayer, 1956.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Obras<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Bourgeois, Louise. <em>Maman.<\/em> 1999. Escultura em bronze com 32 pe\u00e7as ov\u00f3ides de m\u00e1rmore. The Easton Foundation.<br>Kabakov, Ilya. <em>The Man Who Never Threw Anything Away (The Garbage Man).<\/em> 1988. Instala\u00e7\u00e3o. Cole\u00e7\u00e3o Museet for Samtidskunst, Oslo.<br>Warhol, Andy. <em>Time Capsules.<\/em> 1974\u20131987. Cole\u00e7\u00e3o de objetos de diversas dimens\u00f5es. The Andy Warhol Museum, Pittsburgh.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Jer\u00f3nimo Rocha, nascido no Porto em 1981, desde cedo abra\u00e7ou o cinema e a sua atmosfera a partir de um vasto espectro de t\u00e9cnicas, quer de imagem real, quer de anima\u00e7\u00e3o. \u00c9 graduado em Artes Gr\u00e1ficas pela Escola Soares dos Reis, diplomado em Pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, p\u00f3s-graduado em desenvolvimento de projetos pela Escuela de Cinematografia y del Audiovisual de la Comunidad de Madrid (men\u00e7\u00e3o honrosa) e Doutorado em Artes Pl\u00e1sticas pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Desde 2022 \u00e9 professor convidado do Mestrado em Artes da Anima\u00e7\u00e3o e da Licenciatura de Anima\u00e7\u00e3o Digital da ECATI, na Universidade Lus\u00f3fona. Trabalha com realizador e editor na produtora de cinema TAKE IT EASY desde 2005 e Diretor Criativo do est\u00fadio de anima\u00e7\u00e3o EASYLAB desde 2014. Desde 2010 que realiza curtas metragens com regular presen\u00e7a em Festivais Nacionais e Internacionais, entre as quais se contam <em>Breu<\/em>, <em>Les Paysages<\/em>, <em>D\u00e9dalo<\/em>, <em>Cimbalino<\/em> ou <em>20-02-80<\/em>. \u00c9 o primeiro portugu\u00eas a ganhar o Pr\u00e9mio Brigadoon em Sitges com a curta metragem <em>Arcana<\/em> em 2016 e \u00e9 recipiente do Meli\u00e8s D\u2019Argent em Lund pela curta metragem de anima\u00e7\u00e3o <em>Macabre<\/em> em 2017. Colaborou em 2023 com a produtora irlandesa nomeada aos \u00d3scares, Cartoon Saloon, na longa metragem <em>Puffin Rock and Friends<\/em>. Produtor executivo e realizador da s\u00e9rie animada <em>\u00c0 Boleia<\/em> <em>da Ci\u00eancia<\/em>, estreada na RTP2 em 2024. Em 2024 lan\u00e7ou o livro de ilustra\u00e7\u00e3o <em>O Casalinho do Diabo<\/em> pelas edi\u00e7\u00f5es Escafandro.<br><a href=\"http:\/\/www.jeronimorrocha.com\">www.jeronimorrocha.com<\/a><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":1341,"template":"","text_type":[20],"topic":[27],"class_list":["post-1315","research_text","type-research_text","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","text_type-escritos","topic-understatement_1"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/under.fba.up.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/research_text\/1315","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/under.fba.up.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/research_text"}],"about":[{"href":"https:\/\/under.fba.up.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/research_text"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/under.fba.up.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"version-history":[{"count":31,"href":"https:\/\/under.fba.up.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/research_text\/1315\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1367,"href":"https:\/\/under.fba.up.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/research_text\/1315\/revisions\/1367"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/under.fba.up.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1341"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/under.fba.up.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1315"}],"wp:term":[{"taxonomy":"text_type","embeddable":true,"href":"https:\/\/under.fba.up.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/text_type?post=1315"},{"taxonomy":"topic","embeddable":true,"href":"https:\/\/under.fba.up.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/topic?post=1315"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}